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quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Capítulo 1 - O inicio da era das trevas - Segunda cena(1985)

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O ar estava seco naquele dia, caatinga para todos os lados, e apenas aquela estrada que seguia, era uma BR sem nome, local abandonado onde às pessoas evitavam passar, conta-se nas histórias que quem passava por aquelas terras não conseguia mais voltar para casa, vendia tudo para morar no meio do nada, terras de ninguém.
Conseguimos nos localizar em meio a toda aquela confusão, avistamos duas enormes Serras, a estrada seguia entre elas, No mapa havia um mesmo caminho, chamado de de Serra da Santa, pois uma pequena escadaria levava a uma imagem que estava no topo, a imagem de Nossa Senhora. Kelso consegue ver o rosto da santa, sem perceber ao seu redor, eram olhos tristes que choravam lagrimas de sangue. Edwart o chama a atenção, olhando em volta do pequeno altar da santa, havia uma pequena vila, dos dois lados da BR. Mais a frente um posto policial, bem acabado pelo tempo, construção em tijolos, de uma pequena cabine com um telefone e uma mesa de escritório, e ao lado uma garagem aberta com quatro carros que um dia foram apreendidos, no Brasil a justiça anda de Jegue, e sempre que vê uma assombração empaca na estrada, aqueles carros com certeza seguiriam um rumo de decomposição de décadas sem ao menos trocarem de lugar. Do outro lado da avenida, em frente ao pequeno posto policial, muitos caminhões e carros, em estado de perca total, veículos que são resultado de acidentes muito graves, e que o seguro nunca quis saber de seus paradeiros. Dois policiais estavam sentados em cadeiras de madeira apoiadas a parede, conversavam e riam bastante, à medida que o carro se aproximava deles, consegui perceber suas idades, corpos fora de forma, sinais do tempo aparentes em seus rostos, deviam ter entre 46 a 50 anos de idade. O vilarejo bem pobre, pais com crianças a beira da estrada suplicavam que os viajantes não prosseguissem, e levassem com eles seus filhos naquele momento nenhum dos três no carro entendeu nada, mas alguns quilômetros a diante entenderíamos perfeitamente. Aquelas pessoas não agradavam muito o Edwart, mas serviam como motivação para o sonho que ele levava. Ele seguiu com o carro e estacionou próximo aos policiais, desceu sozinho, para perguntar para que lado eram as ruínas da cidade de Petrolina. Kelso e Hawk’s ficaram no carro, e não ouviram a conversa, mas perceberam a expressão nos olhos dos policiais, primeira vez que eles viram tiras com medo, um dos policiais avisou que devia ser melhor darem a volta e abandonar aquele lugar, se quisessem seguir para a outra cidade, podiam pegar uma pequena estrada de ferro e parar em outra BR, evitando assim as ruínas, mas Edwart estava obcecado, e não aceitaria a opinião de um policial. Tanto insistiu, que os guardas apontaram que deveria seguir adiante, sem entrar em lado algum, em poucos minutos de viagem avistariam um velho posto de gasolina, onde poderiam abastecer, em seguida encontrariam um cemitério de casas, não havia erro, ali seriam as ruínas. Ele agradece, e retorna ao carro, um policial o avisa que não haverá retorno, e ouve apenas um: Não precisarei retornar, não há problema social que eu não possa resolver, ou não me chamo Edwart Coll. O guarda responde baixo, reparando se outra pessoa não possa ter escutado, naquele momento apenas Kelso ouviu, e preferia não ter escutado: e quanto a demônios homem? Você pode resolver esse problema?
Ele retorna ao carro, e segue viagem rumo ao desconhecido.
       –     Pai! – perguntou Hawk’s – O senhor não reparou nada de estranho aqui?
Para nossa alegria Hawk’s que passara horas reclamando e depois outras horas em silêncio deu sinal de vida. Edwart o olha pelo retrovisor.
       –      Não percebi nada demais Filho, apenas uma mudança de paisagem. 
      –     Depois que entramos no município de Petrolina não vimos mais sinal de chuva no céu, nuvens pareciam circular a região, nuvens espessas de chuva, talvez, mas nunca se aproximavam. – fez uma pequena pausa, continuando – O céu esta limpo em cima dessas terras, e esse local parece mais uma cúpula, não ta percebendo que mesmo com o ar condicionado ligado estamos nós três mais suados do que quando estávamos tomando sol na praia?
Ele preferiu não responder, Hawk’s logo entendeu que não teria sucesso algum em usar aqueles fatos para convencer um retorno. Edwart sabia que aquilo era verdade, mas o clima não poderia influenciar aquele local em nada mais que sua vegetação, pois eles estavam na caatinga, e nada mais justo que fazer calor naquelas terras.
       –      Os vidros estão mesmo quentes pai, o asfalto parece estar fervendo, nunca vi uma região tão quente. – comentou Kelso com relação ao desabafo de seu irmão, tentando assim iniciar uma conversa.
   Mas o que ele conseguiu arrancar do pai foi apenas um olhar de lado. Kelso estava sentado ao lado do pai, e Hawk’s atraz do banco de Kelso, medida tomada por Edwart para evitar esse tipo de diálogo.
   O calor era tanto naquele dia, que não podíamos ver direito a estrada que seguia a nossa frente, o sol estava alto no céu, era por volta de meio dia, o vapor q saia do asfalto provocava algumas visões estranhas, teve um momento que jurei ter visto uma mulher nua correndo de um lado para o outro da estrada, seguida por um cachorro com varias cabeças. Me senti no Deserto do Saara sem um guarda chuvas.
   Como não podíamos ver direito a nossa frente, prestávamos mais atenção as laterais, da estrada, e a vegetação. Palma, algarobas, alguns arbustos secos e um capim ralo, na maioria do percurso eram as plantas visíveis na estrada. Quando chegávamos em alguma subida, ao olhar mais a frente da vegetação conseguíamos encontrar um ou dois pés de umbu, planta típica da região também, porem um pouco mais difícil de ser encontrada.
   Edwart aproveitou a viagem para pensar um pouco mais no quanto a vida deles mudaria, e em que eles seriam afetados dali adiante. Seus dois filhos já tinham passado por muitas mudanças, Hawk’s, era um garoto muito dedicado naquilo que fazia, e nunca havia causado problemas para os seus pais até os seus cinco anos, foi nessa época que ocorreram todas as mudanças em sua vida, nessa mesma época a mãe deles veio a ser assassinada, Maria C. Kaspbrak, filha de um brasileiro com uma americana, foi levada pela mãe após a morte do pai, com apenas 19 anos se casou com Edwart, e aos 22 teve seus 2 filhos, Kelso e Hawk’s são gêmeos, mas não se parecem muito, um de pele morena, como se fosse bronzeado pelo sol, olhos e cabelos negros, o outro branco, olhos azuis e cabelos de cor castanho escuro. Ela veio a ser assassinada aos 27 anos, morreu jovem e não viu seus filhos crescerem, Hawk’s sabe de algo que provavelmente nenhum dos dois venha a saber sobre a morte dela, pois ele estava paralisado na sala, próximo ao corpo da mãe. Isso fez com que ele se tornasse um garoto muito rebelde, que sempre está contra o pai em tudo. Dês do inicio – quando Edwart pensou em comprar o terreno – que Hawk’s não está de acordo com a decisão dele.
   Já Kelso, até os seus 5 anos sempre foi traquino, não podendo deixar nada parado em seu devido lugar, como uma mudança de gêmeos, viu algo no dia da morte da mãe, e foi encontrado desmaiado na chuva em frente a porta da casa. Se tornou um garoto muito tímido e calado, que por mais estranho que pareça perdeu toda a memória de sua infância até os seus seis anos. O tempo passou, e os dois vão completar 18 anos esse ano.
Kelso se pega as vezes tentando descobrir uma maneira de abrir os cadeados do passado, é como estar diante de uma porta fechada, em meio a um quarto branco, colocando o ouvido contra a porta para tentar ouvir o que falam do outro lado. Uma luz forte sempre vem as suas costas, o deixando a vista cansada e o corpo fraco, com vontade de voltar ele nunca tenta abrir a porta, mas percebe que a voz de sua mãe sempre sai do outro lado da porta, falando coisas sem sentido, quando menos se espera. Palavras que deveriam ser ditas a outras pessoas, mas que insistem em vir a minha mente.
A culpa disso tudo é sua Hawk’s, era você que eles queriam, e não a mim.
Isso não o faz sentir medo algum. Eu devo apenas ignorar essas palavras – pensava, mas elas insistiam.
Não ignore a sua mãe Hawk’s, agora você está mais próximo do que nunca de mim, se lembra? Você está indo para a cidade amaldiçoada, a cidade que fez com que eu morresse, a cidade que fez com que me matassem.
Palavras jogadas ao vendo, coisas sem sentido, palavras que não mais conseguem o assustar. Talvez tenham sido essas palavras, ditas aos ouvidos de seu irmão que o fizera odiar tanto o pai.
     Acho melhor voltarmos pai. Se o senhor não sabe onde estão localizadas essas malditas terras, quem é que vai saber? – resmungou Hawk’s em um tom ameaçador de voz. – Ou o senhor vai acreditar em dois policiais desocupados que tentaram o expulsar desse lugar?
Esse temperamento forte lembrava Edwart na infância, sempre agressivo em seus atos e palavras.
     Deixe de besteira Hawk’s, sabe que é a primeira vez que andamos por essas estradas. – respondeu Kelso – Acho pelo menos que alguém que mora nessas proximidades deve saber onde está localizada essa tal Vila. – explicou.
     Se é que alguém mora por aqui! – retrucou Hawk’s.
     Seu irmão tem razão Hawk’s. – continuou Edwart. Para ele, Dirigir e conversar são coisas que não dão certo. – Esperem um momento, vou parar o carro um pouco para urinar, quem quiser sugiro que faça logo, ou terá que usar as garrafas de refrigerante e urinar dentro do carro mesmo.
              Ele para o carro no acostamento, assegura-se de que não vem nenhum carro, e sai, da a volta no carro e vai para perto de um pé de algaroba a estrada. Kelso e Hawk’s conversam um pouco sobre as namoradas que deixaram pra traz, e tentam imaginar como serão as garotas daquele lugar, imaginam desde pés de cacto com seios, a mulheres derretidas pelo sol como picolés. Para aqueles dois, quando o pai não estava por perto, idade não contava em nada, esqueciam qualquer coisa para acabar sempre em risos. Kelso sempre desmanchava a cara de tacho como ele chamava a cara de velho rabugento do irmão.
              Nesse meio tempo, Edwart termina de urinar, e volta para o carro, antes de entrar, ao olhar se não vem nenhum carro, avista um vulto de alguém se aproximando pelo acostamento da estrada.
da subida da estrada ele avista alguém a se aproximar, vindo a direção do carro, caminhando pelo acostamento.
       –      Acho que estou vendo alguém. – alerta. – Vamos aguardar um pouco enquanto ele vem, não consegui ver o posto que o policial informou, ele falou que seria rápido, mas eu acho que esse calor todo pode nos ter confundido em algo.
Hawk’s abre a porta do carro e vai ao mato urinar, enquanto Kelso apenas acena com a cabeça. Passando sobre o vapor da estrada eles avistam velho, bem estranho em suas vestes. aparenta ter a média de uns 70 anos, vestido em roupas de couro de bode, e coberto por uma capa também feita de couro, chama a atenção de Edwart. Ele não consegue esperar os passos do velho, e acelera o carro, parando perto de onde o velho estava a caminhar. Hawk’s que ficou um pouco pra traz, urina rápido, e corre em direção ao carro, irritado por respingar urina em seus sapatos novos.
       –     Boa tarde senhor! – grita Edwart, chamando a atenção do velho. – Será que o senhor pode nos ajudar?
   O velho passa um pouco do carro, e fixa seus olhos em Hawk’s, em seguida da a volta no carro e para ao lado de Edwart.
Hawk’s, sente um breve calafrio, para por alguns segundos, com medo, e continua andando em direção ao carro.
            O querem de mim. – resmungou o velho.
       –     Será que o senhor poderia nos ajudar? – perguntou Edwart. – Só precisamos de um minuto da sua atenção.
   O velho se abaixa um pouco para ver quem está dentro do carro, fitando Kelso em seus olhos. Kelso começa a sentir umas agulhadas em seu peito, que param quando ele desvia o olhar. As dores que ele sentiu não são dores fortes, muito pelo contrário, as dores eram similares ao formigamento que se sente quando passa muito tempo sentado sobre a perna, formigas corriam em suas veias no lugar do seu sangue. Olhar para ele se torna insuportável.
   Edwart olha para o lado, enquanto o filho entra a resmungar no carro. Hawk’s também percebe algo de diferente no velho, mas retorna ao seu silêncio, apesar de não sentir dor alguma.
Ele fita o velho, tentando ver seus olhos novamente, e percebe que eles brilham quando a luz do sol bate, como se fossem cristais. Após mais uns segundos observando, ele percebe, que na verdade, são olhos de vidro. No inicio ele as tinha visto brancas, mas com o tempo ele percebeu que elas estavam mudando de cor, assumindo uma cor vermelho sangue.
   FILHO, SOU EU. PRECISO QUE ME DÊ OS SEUS OLHOS!
       –     Os olhos... Os olhos dele são esferas de sangue! – sussurrou Hawk’s, admirado com o fato.
       –     Como assim Hawk’s, o que você está vendo? – perguntou Kelso, um pouco assustado com o que ele havia dito.
   Hawk’s se assusta com o fato de nenhum dos dois perceber.
       –     Há, já sei sobre o que você está sussurrando! – afirmou Kelso. – Você está falando dos olhos de vidro dele, mas não vejo vermelho algum, apenas o branco.
       –     Branco? – falou Hawk’s assustando-se com aquilo.
   Seu irmão não pode ver os meus olhos Hawk’s. Me ajude. Lamentou a voz em sua mente.
   Edwart percebe que o velho é cego dos dois olhos.
       –     O senhor precisa de ajuda? Para onde é que o senhor está indo? Aceita uma carona? – naquele momento ele realmente percebeu que o velho era cego.
       –     Acho que na verdade vocês é que estão precisando de ajuda, pois me tiraram do meu caminho, e me chamaram a atenção, mesmo sem saber que não possuo olhos! – retrucou o velho. – Vamos me digam, o que vocês estão procurando, nessas terras malditas? Já sabem que aqueles que seguem por esse caminho jamais retornam?
   Aquilo que o velho disse, deixou Edwart totalmente confuso.
       –     Na verdade, nós estamos meio perdidos... – Edwart percebera que nada do que ele viesse a falar, ia ajudá-lo naquele momento. – Não importa, mesmo que o senhor soubesse onde fica essa vila nunca que poderia nos guiar até ela...
       –     Até a Vila das Almas? É esse o local que estão procurando? – perguntou o velho. – Se for ela a Vila que vocês estão procurando, apenas sigam o caminho de vocês a frente da estrada, após a subida encontrarão um velho posto de gasolina, a enorme placa indica que ele ainda funciona, mesmo com tão poucos clientes.
       –     Sim, é essa a vila que procuramos! – Edwart não conseguia acreditar naquilo.
       –     Não é preciso ter olhos para poder ver o que há ao redor, a única coisa que preciso é do meu espírito. – O velho começa a mexer no bolso, pegou um vidro pequeno de maionese cheio de sal, abre a tampa. Em seguida ele coloca o dedo na boca, e o mergulha no sal, o colocando novamente na boca, que exibia a ausência de muitos dentes. – Mas uma coisa eu lhes aviso, a lenda que envolve o local está procurando por vocês, não necessariamente você Edwart, pois agora você não tem mais nenhuma utilidade para eles, e ela irá atacar o que tiver a mente mais fraca primeiro, pelo que eu vejo aqui são os seus dois filhos, por isso tome bastante cuidado, e nunca tente sair da vila à noite pela estrada ou pelo matagal, se preferível, quando anoitecer, nem saia de casa.
       –     Creio que o local deva ser bastante violento – Edwart ajeitou os óculos que estavam quase caindo. – Mas logo essa “Vila” será uma Cidade bastante respeitada por sua segurança em todo o mundo. – Edwart falou aquilo meio que surpreso com o fato, pois o velho havia acertado o seu nome.
       –     Será que o Sr. Poderia nos falar sobre essa lenda Sr... – Perguntou Kelso. – Fiquei curioso com o que disse.
       –     Olson. – disse o velho. – Me chame assim, ou apenas de Velho. – continuou – Mas prefiro que me chame de Velho. 
       –     Ok, velho... – Kelso olha para o pai – Temos tempo, não temos?
       –     Claro Kelso, um pouco de história local pode ser importante. – puxou o freio de mão – Pode nos contar essa lenda?
       –     Acho que não poderei contar tudo, mas um pouco dela acho que posso lhe falar. – o velho retira a capa, e a coloca no chão ao lado do carro, fazendo com que os seus longos cabelos brancos ficassem a mostra, junto com seu rosto sofrido e cheio de rugas, iguais ao de um velho índio. – Tudo começou no ano de 600, onde a ultima e mais pura tribo indígena do mundo ganhou um livro muito cobiçado de alguém muito especial. Para uma tribo intocada, um livro era como uma arvore nova que nasce na mata, até um espírito da floresta nos contar o que ela faz, nos a víamos apenas como uma arvore pura.

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