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sábado, 24 de setembro de 2011

Capítulo 1 - O inicio da era das trevas - Quinta cena(1985)

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Olhar vidrado, os vidros do carro sobem, a porta se trava, podia se sentir o cheiro de terra molhada, um fio de sangue escorreu pela testa de Kelso, desceu pelo nariz e pingou em sua mão. Seu olhar logo se direcionou para aquela gota, fria e não tão vermelha quanto o sangue que estava em seu rosto. Podia se notar todo o vermelho se dissolvendo na transparência se moldar em pura água. Outros fios se formaram em seu rosto, gotículas ficavam e partiam, estava ficando mais frio, chovia fora do carro, mas não podia se ouvir as gotas baterem na lataria, apenas o som da água batendo ao chão.
Trovões rasgavam os céus, a chuva estava mais forte, agora ele conseguia ouvir o som da água batendo nos telhados e com os pés sentir um córrego se formar a partir de uma poça de água sobre a qual estava sentado. Se continuasse na chuva logo pegaria um resfriado, a escuridão da noite não ajudava muito na visão da rua. A chuva passava forte embaixo da luz do postes da rua, fazendo parecer com longos fios dourados. Roupas totalmente encharcada.
Medo? Está com medo meu jovem?
Devia ser só mais um pesadelo, devo ter batido a cabeça com muita força. – pensou.
Porem a sensação da chuva molhando e esfriando o seu corpo era a maior certeza que ele poderia ter de que aquilo não era um sonho.
Dar vida as minhas lembranças e revivê-las? Será que eu estou ficando louco?
Não podia ter certeza, até concluir tal pensamento.
     Ei, não vale jogar lama não, a mamãe vai brigar se eu arranhar os óculos.
Aquela voz, doce e inocente, seguida de uma pequena batida nas costas. Lama, ele foi acertado por lama.
     Corre Haqui! – gritou um menino ao longe – Joguei lama num moço que está na rua!
Ele viu as duas crianças correrem, apesar de não ver as suas formas distintas, nem os seus rostos, tinha certeza que era ele quando criança junto ao seu irmão, pois Haqui era como ele chamava seu irmão quando pequeno, já que Hawk’s era difícil de pronunciar. Ele esticou seu braço em direção aos garotos, mas estava ficando fraco, não tinha forças suficientes nem para se manter em pé. Seus joelhos ameaçavam dobrar, uma sensação de afogamento e falta de ar rasgava o seu peito, a temperatura começou a subir novamente, estava muito quente. Podia sentir seu corpo ser arrastado para o lado, enquanto a luz do sol ofuscava seus olhos, levantou assustado, quase batendo a cabeça contra a de seu pai que tentava lhe acordar.
Respiração ofegante, olhos formigando como se fossem saltar de seu rosto, desorientado, um olhar assustado. O que está acontecendo, onde está a chuva?Onde estão os garotos?
     Kelso, Kelso. – Hawk’s me sacudiu – Você está bem?
Coloquei a mão sobre o rosto por alguns segundos, senti água cair sobre minha cabeça e escorrer entre meus cabelos e pescoço, molhando minha camisa. Meu pai estava jogando a água que restou da garrafa em mim.
     Vamos filho, beba um pouco. – Aproximou a garrafa da minha boca, mas eu recusei.
     Estou bem pai, guarde a água, n sabemos se aqui tem água potável.
  Me apoiei no carro e comecei a me levantar, meu pai e Hawk’s tentaram me ajudar, mas neguei mais uma vez.
     Já disse que estou bem, foi apenas uma tontura. – Ensaiei um sorriso, sem sucesso. – Já acabou a discussão? – tentei mudar de assunto rapidamente, mais uma vez sem sucesso.
     Seu irmão já entendeu que não devia ter dito aquilo, não se preocupe, tem certeza que está bem?
Enquanto Kelso é amparado pelo pai, Hawk’s aproveita a oportunidade para olhar em volta, o lugar onde irá morar por um bom tempo, mesmo que seja forçado.
Olhar fixo para o nada, pensando em coisas aleatórias, o sol batendo forte no telhado das casas e no resto de asfalto que ainda sobrou na rua, olhar para o fim da rua, é imaginar que aquela rua não tem fim, o vapor que sai da terra nubla qualquer tentativa de ver com perfeição mais que alguns metros ao redor, além de nenhuma arvore para fazer sombra na rua. Casas de muros altos e colados uns com os outros, sinal que mesmo sendo um pequeno vilarejo, a criminalidade já é algo freqüente no local, pois sobre os muros, arames farpados ou pedaços de garrafas de vidro cuidam de dar mais segurança a essas fortalezas residenciais.
Algo chama sua atenção na pequena loja ao qual pararam o carro em frente, uma sombra, que provavelmente apenas ele estava a vendo, forma semelhante a de um humano, difícil dizer se a de um homem ou de uma mulher, ombros largos, como se estivesse com um manto ou capa pesada. Aos poucos a sombra vai se moldando, dentro da loja, o manto vai desaparecendo, e ele consegue perceber agora que é uma mulher, dois olhos brilham como olhos de gato na escuridão, e após alguns passos a dona da sombra aparece em frente à porta.
Ele ficou olhando ela fixamente. Ela ficou parada alguns segundos atrás da porta de vidro na entrada da loja, olhando para ele friamente, sentiu um calafrio em suas costas, algo estava envolto no corpo da mulher, mas logo se desprendeu, caindo em sua sombra e desaparecendo.
Os olhos dela voltam ao normal, ela está saindo da loja, indo em direção a onde eles estão.
     Você viu aquilo Kelso? – apontou Halk’s – Aquela mulher...
Hawk’s sabia que achariam que ele estava ficando louco, Seu pai estava muito preocupado com Kelso, e o mesmo, por sua vez tentava desviar a atenção do pai para qualquer outra coisa que não tivesse haver com o que ele teve. Mas era tarde para pensar nisso, Edwart e Kelso já estavam a olhar na direção da bela jovem.
Ao sair da sombra da loja e pisar na calçada, sendo banhada pela luz do sol, pude perceber o quão bela ela é. Pele cor de barro, corpo modelado com perfeição pela natureza, curvas perfeitas, se moldavam em seus leves passos, milimetricamente calculados que tocavam o chão com perfeição sobre o seu salto. Vestido justo e curto de cor forte, vermelho como o sangue que fervia em nossos peitos naquele momento, seu decote chamativo valorizava ainda mais os seus grandes seios. Seus longos cabelos e lisos cabelos de cor negra, como a noite, se chocavam contra sua cintura, algumas vezes passavam em frente ao seu rosto, mas sempre retornavam a sua posição anterior.
Uma leve brisa soprou em nossos ouvidos o suave som de sua respiração, seu rosto pôde então ser visto com clareza, ela estava cada vez mais perto do carro. Lábios carnudos, estavam bem desenhados com um batom vermelho, rosto sem imperfeições ou espinhas, não consegui ver nenhum defeito naquele momento, seus olhos negros eram semelhantes a duas perolas negras, seu brilho era intenso, nenhum homem jamais resistiria aquele olhar. Os traços do seu corpo não a definiam como uma mulata ou uma branca, mas seus antecedentes provavelmente eram indígenas.
Nos assustamos, os três ao mesmo tempo, ela falou suavemente e, então conseguimos perceber que ela era de verdade, e não uma miragem.
     Boa tarde rapazes, posso ajudá-los?
Ficamos alguns segundos em silêncio, admirando tal beleza esculpida em um lugar tão estranho.
     Boa tarde senhorita, estamos... – iniciou Edwart
    Não me chame de senhora ou senhorita. – interrompeu a bela jovem – Me chame pelo meu nome, Luci...
     Fer! – completou Hawk’s, mas assim que todos olharam para ele, percebeu então que havia dito uma besteira sem tamanho, então completou – Fernanda?
  Ah, não, Luciana. – Disse a jovem, vendo que foi apenas uma pequena confusão auditiva de Hawk’s.
Edwart limpa as mãos na calça e, estica o braço na direção da jovem Luciana.
  Me chamo Edwart. – apertou sua mão – E esses são meus dois filhos. – soltou sua mão e deu passagem para que seus dois filhos pudessem a cumprimentar. – Kelso. – que esticou o braço e a cumprimentou – E Hawk’s. – que apenas acenou de onde estava.
Luciana olha para Kelso, e vê um pouco de sangue em sua testa.
Oh garoto, está machucado? – tocou seu rosto, enquanto examinava – Venha, podemos fazer um curativo dentro da loja, creio que temos um kit de primeiros socorros em algum lugar por lá.
Kelso ficou sem ação por um momento, mas logo a respondeu.
     Não se preocupe com isso, já estou bem, preciso apenas lavar o rosto.
   Está certo. – disse enquanto abaixava a mão. – Mas o que vocês procuram? Estão perdidos?
Edwart tomou a frente dos garotos.
     Estamos procurando uma empresária de mesmo nome que a senhora. – parou e então corrigiu – Que você Luciana.
     Bom. – passou o polegar abaixo dos lábios, removendo o excesso de batom – A única empresária aqui nesse vilarejo chamada Luciana sou eu.
Edwart custou a acreditar, que uma garota tão jovem viesse a ser uma empresária tão bem sucedida como Luciana Olson.
     Creio que não. – interrompeu – Essa Luciana não só é empresária, mas também é a dona de todo esse terreno onde estamos nesse exato momento.
     Então sou eu mesma! – interrompeu ele – Não só sou a dona desse vilarejo, mas também sou dona de quase todas as fazendas das regiões em volta das ruínas desse lugar. – ela ajeitou os cabelos, colocando alguns fios que insistiam em passar em frente aos seus olhos atrás das suas orelhas. – E você? É algum empresário ou está aqui apenas como turista para conhecer as ruínas da cidade fantasma?
Edwart n conseguiu disfarçar o espanto e fascínio, por uma jovem tão bela ser uma empresária de tanto poder.
     Conversamos a alguns dias atrás, sou o Sr. Kaspbrak. – complementou – Creio que apenas falei esse sobrenome, por algum descuido esqueci de falar meu primeiro nome. – Sorriu – Costume americano.
     Ah, então é o Sr. Kaspbrak.
     Edwart – interrompeu – Me chame assim, Kaspbrak é muito formal.
     Certo Sr. Edwart.
     Apenas Edwart. – interrompeu novamente – Não sou jovem, mas também não sou tão velho assim para ser chamado de senhor.
     Ok E-dw-ar-t. – soletrou, enquanto sorria. – Vamos, entrem, está muito calor, e o garoto precisa lavar o rosto. – Virou-se em direção a entrada da loja. – Precisamos tratar de negócios também, tenho certeza que será muito melhor fazer isso enquanto tomamos uma xícara de café.
Halw’s esqueceu por alguns segundos aqueles belos e fartos seios, e aquela boca sensual, quebrando o possível hipnotismo que a jovem havia lançado sobre eles, não havia melhor oportunidade para perguntar.
     E aquele animal que estava sobre seus ombros? – indagou.
Ela estava quase caminhando, mas ao ouvir isso parou e virou na direção dele.
     Que animal?
    Como assim que animal? – Halk’s sorriu – Vi perfeitamente um sobre seus ombros, não consegui o ver com perfeição, mas creio que era um pequeno macaco, ou um lagarto e, muito rápido por sinal. – passou a mão sobre a testa, removendo o suor. – Não consegui acompanhar seus movimentos, eu poderia dizer que ele entrou em sua sombra, de tão rápido que ele foi.
Ela apenas sorriu.
   Não temos animais aqui, e nem gosto deles. – continuou – Você deve ter visto alguma alucinação, o temperatura está muito alta, e esse asfalto escaldante, creio que estão viajando a muito tempo.
  Eu tenho certeza do que eu vi, se não quer falar que animal era, não precisa! – retrucou – Apenas não me chame de menti...
     Chega Hawk’s! – interrompeu Edwart.
Em seguida fez gesto de silencio com a mão, e olhou fixamente nos olhos de Hawk’s.
     Peço desculpas pelo meu filho.
     Mas...
  Sem mas! – interrompeu novamente – Ele está cansado da viagem, por isso a agressividade.
    Entendo. – disse ela, virando-se e caminhando novamente em direção a loja. – Vamos entrar logo então, para evitar mais delírios. – lançou um sorriso sarcástico enquanto caminhava.
Edwart a acompanha, enquanto Kelso puxa Hawk’s pelo braço e comenta em voz baixa.
     Seu idiota, está ficando louco? – Continuou enquanto segurava o braço dele – Falar desse jeito assim com a empresária que meu pai viajou para negociar, quer que ele nos mate?
     Não! – Falou alto, afastando a mão de Kelso que segurava o seu braço. – Até mesmo uma criança pode ver que ela está me provocando, por que ela não fala logo o que era aquilo em seu ombro?
     Aquilo o que? – Kelso sorri para seu pai e Luciana, que param, então ele faz um gesto para que eles sigam, eles voltam então a caminhar. – Não grita poxa! – continua – e explica o que você viu.
     Pai! – grita.
Luciana continua caminhando, e entra na loja antes deles, Edwart para e olha friamente para Hawk’s, que se aproxima dele.
     Será que o senhor não percebe que algo muito estranho está acontecendo por aqui? – explica – Primeiro os avisos, depois o surto do Kelso, e agora a criatura misteriosa, essa vila é amaldiçoada, nada de bom vai sair daqui, será que apenas o senhor não vê isso?
     Cale-se Hawk’s! – alertou – Quantos anos você tem? Doze? – colocou a mão sobre o rosto – Essas suas atitudes infantis só vem a prejudicá-lo.
Kelso tenta parar a discussão, porem Halk’s entra em sua frente.
     Por favor, Kelso, dessa vez não. – continuou  – Você tentou me ajudar e impedir as nossas discussões por todos esses anos, mas agora basta, já suportei demais as atitudes autoritárias do nosso pai.
Edwart se aproxima de Hawk’s, e o encara.
         –     E vai fazer o quê?
       –   Cale-se pai, agora é a minha vez de falar. – disse Hawk’s – durante toda as nossas vidas o senhor nunca nos deixou tomar nossas próprias decisões. – parou por um momento, respirou e continuou em seguida - Sempre nos afastando dos amigos que o senhor não gostava, escolhendo as nossas namoradas, pagando as pessoas para que elas nos seguissem, comprando amigos para nós, mas agora não vou deixar que o senhor controle ainda mais a minha vida, me aprisionando nesse inferno! – Gritou – Para mim já chega! Não agüento mais as suas ladainhas. – Hawk’s coloca a mão na cabeça. – Adeus pai... – continuou. – Acho que é isso que eu tenho para lhe dizer nesse momento. – Hawk’s passa entre Edwart e Kelso.
Kelso olha assustado para o pai, esperando alguma atitude por parte dele.
              O senhor não vai fazer nada pai?
Edwart olha friamente para o filho, que caminha em direção ao carro, pega as chaves no bolso de sua calça e as joga no filho.
        Você acha que já é adulto, e que consegue tomar as próprias decisões correto? – Indagou – Pois vamos ver quanto tempo você irá conseguir viver sem meu dinheiro e sem a minha influência.
Halk’s se abaixa, sem olhar para trás, pega as chaves e entra no carro. Kelso corre para o carro, já Edwart se vira e segue para dentro da loja, sem ao menos olhar para trás.
           Hawk’s seu louco, saia já daí, você sabe que ele ficará muito irritado com você. – disse Kelso em voz baixa.
Com lagrimas nos olhos Hawk’s olha para Kelso.
           Você vem comigo Kelso? – continua – Temos a herança da nossa mãe, não iremos precisar mais do dinheiro dele.
A tristeza dele invade o coração do irmão, os olhos de Kelso começam a lacrimejar, por alguns instantes ele sente uma brisa fria em meio a todo aquele calor.
           Não estou tendo bons pressentimentos com relação a isso Halk’s. – respirou – Você sabe que nunca erro.
             Cuide do nosso pai.
             Como assim?
             O destino é algo fácil de ser mudado irmão, basta você querer.
Hawk’s liga o carro e parte em seguida fazendo a volta e seguindo para a entrada da cidade.
São quase seis horas da tarde Kelso fica um pouco preocupado, logo irá anoitecer, e ele sabe o perigo das estradas a noite. Por algum motivo, ele ainda sente um aperto no peito uma falta de ar, senta um pouco na calçada, espera uns minutos, mas nem sinal da volta do irmão. Vendo que ele iria demorar para mudar a decisão que tomou, Kelso resolve então ir ao encontro do pai, olhando para trás com desconfiança, tentando imaginar o que Halk’s viu para ficar tão decidido a não permanecer naquele lugar.

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