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domingo, 28 de novembro de 2010

Capítulo 1 - O inicio da era das trevas - Quarta cena(1985)


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       –     Que lenda mais distorcida! Por que o próprio demônio viria a entregar esse livro mágico para os índios? – comentou Kelso.
       –     Isso é apenas um blefe. – interveio Hawk’s com o tom de voz um pouco alterado. – Será que você nunca vai perceber quando alguém está mentindo?
       –     Você está é com medo. – disse Kelso colocando a mão acima da cabeça e balançando os dedos. – Cuidado Hawk’s. – continua Kelso usando um tom de voz aterrorizador. – Amanhã você irá completar os seus 18 anos, há, há...
       –     Há, há, há... – sorriu Hawk’s sarcasticamente. – E o que isso tem haver com a lenda que o velho contou? Em seu banana. – continuou – E mais uma Bananaman, se eu completo 18 anos amanhã você também completa, ou será que esqueceu que somos irmãos gêmeos!
   Kelso para de sorrir, era verdade o que seu irmão havia dito, como sempre, mais uma tentativa fracassada de colocar um sorriso em seu rosto.
       –     Bom senhor...
       –     Por favor, não me chame de Senhor. – disse o velho.
       –     Claro! Desculpe-me – continuou Edwart. – Acho que já ouvimos besteiras demais para uma tarde, primeiro os guardas e agora você. – pensou um pouco – Para falar a verdade é até interessante essas lendas existirem, uma cidade sem cultura não é nada.
   O velho Olson percebeu que não havia maneira de convencer aquelas pessoas com simples palavras, tratou de pegar a sua capa e colocá-la novamente sobre seus ombros.
       –     O Demônio tentou imitar Deus mais uma vez, tentou criar seus sete anjos do inferno... – virou-se – ...eles deveriam matar os sete anjos encarregados de fazer o apocalipse sobre a terra, dando pleno poder as forças das trevas. – baixou um pouco o tom da voz, seu sussurro podia ser ouvido próximo aos ouvidos, a melancolia em suas palavras fizeram algumas gotas de suor escoar pelo pescoço de Hawk’s. – O homem adoraria o diabo então, eles estariam a salvo do fim dos tempos, e ele seria o novo Deus. – continuou a sussurrar enquanto se afastava do carro, seguindo a estrada. – O homem se revoltaria mais uma vez contra o céu, esqueceriam o propósito da existência da vida mais uma vez.
   Ao se despedir, acenando de costas para o carro, apenas Edwart ouve em sua mente, um sussurrar de palavras já ouvidas por ele em seu passado, Os fantasmas estão sempre famintos. Talvez a maneira mais simples de lhe provar que essa história é real, será deixando que os espíritos lhe mostrem isso. – mesmo confuso, sua mente ainda lhe sussurrava – Não devia ter feito o que fez com a sua esposa. – a voz continua, agora mais ameaçadora – NUNCA DEVERIA TER FEITO AQUILO.
       –     Como é que ele sabe o meu nome? Tenho certeza que não o disse, e que nenhum de vocês falou também! – disse Edwart olhando para Kelso e Hawk’s que estavam no banco de trás do carro. – Droga, ele sabe dela. – murmurou, de modo que Kelso e Hawk’s não viessem a ouvir.
   Mas os dois estão tão distraídos que não ouvem nada, mesmo se ele tivesse gritado aquelas coisas, eles não ouviriam.
   Hawk’s não desgruda os olhos do velho, o acompanha em cada passo. As ondas de calor parecem deixar o velho semi-transparente, o vento fica forte pro alguns segundos, levantando um pequeno redemoinho em meio a terra, que sobe o asfalto e encobre o velho, aqueles redemoinhos são normais, já que o local é muito quente. Quando a ventania cessa, ele não esta mais lá. Hawk’s fica um pouco assustado, Kelso está olhando para o pai, e Edwart se preocupando em fechar os vidros do carro para não entrar poeira.
       –     O velho pai! Ele desapareceu! – grita Hawk’s levantando se um pouco, procurando confirmar o que realmente viu.
       –     Como assim cadê o velho Hawk’s? Não vê que ele está ali na estrada. – Edwart aponta a mão para a estrada, sem perceber que o velho não está mais lá.
   Quando ele vira o rosto, percebe que o velho realmente não está mais lá, mas acreditar que alguém desapareceria assim do nada não seria sensato. pensou por uns instantes.
       –     Vamos embora, ele deve ter entrado no matagal! – afirmou enquanto girava novamente a chave para ligar o carro. – Como não temos outra escolha, acho que devemos seguir o caminho indicado pelos guardas, se eles estiverem certos, em mais alguns minutos estaremos nesse tal posto.
   Eles seguem a estrada mais uma vez.
Com o tempo, eles passam em frente ao posto, mas após ver algumas pessoas não muito sociáveis, jovens, para ser mais exato. Rapazes cortados de contos policiais, marginais, garotos armados. Grandes tatuagens em seus braços, e alguns com cabelos raspados e tatuagens em suas cabeças e rostos. Não dava pra ver bem ao certo que desenhos eram, mas naquele momento não era algo de muita importância para Edwart.
     Mas o que está acontecendo por aqui? – disse, totalmente assustado com o que estava vendo. – Abaixem-se, vou acelerar.
Os garotos apenas olharam o carro passar, não fizeram nenhum outro movimento, pareciam não se importar com eles, e continuaram a fazer o que estavam fazendo.
Após ter a certeza que não estava sendo seguido, ele pede para seus filhos levantarem, e respira um pouco mais aliviado. Kelso abre a janela do carro e respira fundo, Hawk’s apenas se senta novamente. Edwart avista as ruínas ao longe, agora visíveis, ele percebe a gravidade do fato. Alem do abandono, plantas que invadiam casas que poderiam abrigar pessoas sem problema algum, prédios e outras construções aos pedaços, acabadas pela falta de zelo. Adentrando mais a cidade, algo mais podia ser visto. Por toda a estrada estavam espalhados corpos de animais. E como se não bastasse à maioria das plantas do local estavam secas e doentes, ou então mortas e podres.
   Não demorou muito para que eles avistassem a pequena Vila, em meio as ruínas do que antes era uma bela cidade. A sensação não era lá das melhores, como Kelso havia dito, pareciam estar em uma estufa, era um círculo de coisas mortas envolvendo a cidade, que mesmo em meio de tanto desprezo ainda tentava sobreviver.
   As pessoas começaram a aparecer em meio as ruínas, algumas crianças podiam ser vistas ao longe jogando bola. Casas rodeadas d lixo e esgotos a céu aberto, pessoas que poderiam ter a estrutura que desejassem, e mesmo assim continuavam a viver ali. Ele podia ver nos olhos delas, algo de diferente, homens e mulheres que vieram de outros paises, traços de pessoas que não pertencem aquela região, brasileiros de todos os cantos do Brasil em meio a tanta miséria.
     Meu Deus do céu, o que está acontecendo por aqui? – perguntou Kelso.
     Não sei meu filho, não sei. – disse ele enquanto tentava compreender a situação.
     Essa é a maldição que o senhor procurou ao ofender aquele velho, e eu espero que o senhor a cumpra sozinho. – afirmou Hawk’s usando um tom de voz ofensivo.
Não fale desse jeito com o seu pai Hawk’s. Você ainda não sabe, mas ele não fez aquilo por mal.
Hawk’s olha para os lados, é estranho, ele tem certeza que conhece aquela voz. Abandonar todos os amigos, namorada, faculdade, sua casa e sua cidade, para viver em meio a miséria? Ele nunca aceitaria isso, ele sabe que tem a capacidade de conseguir algo melhor, ele não suporta a idéia de seu pai tentar construir uma cidade, e muito menos naquele lugar.
Ira essa, se tornando tão imensa em seu interior, tão explosiva, que parecia despertar algo guardado a bastante tempo em sua garganta, algo que ele conhecia, mas preferia jogar ao esquecimento.
Diga Hawk’s!
Não mãe, sabe que eu não posso falar.
Diga logo Hawk’s!
Kelso não pode ouvir isso.
Deixe de ser um bebê Hawk’s, diga logo isso, é a sua mãe que está mandando.
     Foi por sua culpa que ela morreu, ela também não queria vir, e você sabia muito bem disso!
Edwart Freia o carro no mesmo instante que Hawk’s termina de fazer tais acusações, e acaba assustando um grupo de senhoras que está na calçada ao lado, o carro para em frente a uma pequena loja de conveniências, não tão acabada quanto o resto da antiga cidade. Ele olha para Hawk’s com um olhar de desprezo, levanta a mão em direção a ele, já pronto a acertá-lo com toda a força do seu corpo, mas foi impedido de fazer isso após ouvir um barulho de batidas vindo de dentro do carro. Um som de ossos se chocando contra o plástico do painel do carro. O barulho estava sendo feito pela cabeça de Kelso, se chocando contra o painel. As senhoras olharam assustadas, e entraram em suas casas. Edwart estava assustado, e Hawk’s mais ainda, nunca viram ele fazer aquele tipo de coisa. Palavras eram sussurradas de sua boca, enquanto batia sua cabeça cada vez mais forte, palavras sem sentido começavam a se juntar.
     Não nos deixe Mamãe.

Um comentário:

nikolainikolaevichromanov disse...

São pessoas como nós que, temos o direito e o dever de lutarmos pela melhora desse mundo. A Profissão de Professor, não é só a palavra dita, mas também uma missão, com valor fundamental e influente no mundo todo. Parabéns pelo rico vocabulário usado no seu Blog, originalidade e criatividade.

De seu amigo que, te admira muito, Pedro Giachetta