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quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Prólogo: O Senhor Coll - Terceira cena (2008)

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Bill, 17 anos, filho mais velho do Sr. Coll. Estava em casa, ansioso com a entrevista do pai ele monopolizava o controle da televisão. Cabelos castanhos, que puxara a mãe, em corte surfista. Camiseta que mostrava os braços musculosos, short folgado calçado em sandálias, quer dizer, um pé ali e outro abaixo da mesinha que ele apoiava os pés. Próximo aos seus pés estava uma enorme tigela com pipocas frias, sua irmã Érica havia feito pra ele comer enquanto via o filme, que ele mentira. Ansioso, não comeu nem bebeu do suco, para sua sorte, pois ela não sabia se tinha colocado açúcar ou sal, a vontade de voltar para o laboratório onde ela organizava suas bugigangas era tão grande, que só conseguia se mover a cozinha para fazer algo pro irmão comer, ou ir visitar o amigo Alan, que possuía uma oficina de coisas, do outro lado da rua. Érica era muito reclusa à sociedade, dito como uma NERD pelo irmão, e como um Gênio pelo amigo, ela ficava até semanas sem comer, jura Bill, enfurnada naquele laboratório misterioso, no qual apenas o Alan conseguia entrar. Ela era muito nova para tanta inteligência, apenas 16 anos, e já havia conseguido títulos e troféus em diversas feiras de Ciências em todo o mundo. Com seus projetos futuristas, recebia todos os dias os mesmos comentários do irmão: Seus olhos parecem ver mais além do que qualquer outro olho. Ou então: Eu tenho uma irmã ou um alienígena em casa? Alguns desses comentários ela simplesmente desprezava. Olhos azuis da mãe, e sorriso tímido do pai, era uma bela mulher, apesar da idade. Bill não era muito bom com as palavras, e isso era um alívio, pois o seu pai havia pedido para não deixar sua irmã ver a entrevista. Ele inventou várias mentiras, mas no fim disse que se ela ficasse vendo filme com ele na sala ele invadiria os domínios dela. Isso resultou apenas nas pipocas frias e no possível suco salgado. Enquanto qualquer garoto da mesma idade dele pensava em arranjar uma namorada e um carro, Bill não estava muito preocupado com isso, pensava apenas em armas de fogo, pesquisava sobre os lançamentos sempre que podia, e estava quase todos os dias no DEPARTAMENTO DE POLÍCIA DA VILA DAS ALMAS, onde seu primo, filho de seu padrinho Willians, o ensinava a atirar. Em questão de pontaria ele já havia vencido os melhores atiradores da cidade, ele se orgulhava disso, mas era tudo sem muito divulgar. De alguma maneira seu pai já sabia disso, e o havia alertado diversas vezes que era um jogo perigoso, mas que ele deveria aprender a se defender e defender a irmã dele enquanto o pai não conseguisse controlar por completo a situação. Bill não queria ser policial, gostava de atirar, nada mais que isso, não se tornaria um maníaco franco atirador em seu futuro, apenas gostava de atirar contra alvos no DPVA.
Ele não conseguia esconder a apreensão que sentia quanto à entrevista do pai, sabia que ele seria motivo de chacotas nos jornais amanhã, por que ele já estava sendo nos jornais do dia, Bill não suportava tais insultos, pois o pai nunca pedia para falar em público tais fatos, sempre era convocado pela imprensa, que sem assunto para passar nos jornais, já que a criminalidade era controlada na cidade pelo excelente serviço policial. A loucura volta mais uma vez a primeira página, esse era o tema do jornal PÉ D’ÁGUA, um dos mais populares da cidade, perdendo apenas para o Notícias do Dia, que começou a publicar diversos artigos gratuitos na internet, ganhando por acessos e não mais por venda de jornais apenas, seu conteúdo era tão instigador que não dava para diferenciar o jornal comum do jornal on-line.
      Esses desgraçados não sabem de Merda alguma. – comentou, enquanto limpava os pés no jornal do dia. – O senhor que me preocupa meu pai, tenho medo de que suas palavras se façam verdade.
Ele viveu nas mentiras da sociedade, seu pai pedira que ele negasse qualquer acontecimento na cidade, com medo que Bill fosse perseguido por alguns dos antigos Fanáticos. Ele nunca iria comentar realmente tais fatos, no máximo quebraria o nariz de quem falasse o nome louco após o nome do seu pai.
Mesmo sabendo a hora exata da entrevista, ligar a televisão cinco horas antes não teria problema, teria? Olhos arregalados em frente à tela da TV de 29”, via todos os comerciais, prestava atenção em detalhes nunca observados, como a cor das meias das atrizes nos comerciais de cerveja, onde elas normalmente apareciam desnudas, mostrando qualquer coisa menos uma cerveja. Algo vinha sempre a sua mente, a cada intervalo comercial – De forma alguma Bill... você está me ouvindo? De forma alguma você deve deixar a sua irmã ver a entrevista. – Após certificar-se de que a porta do laboratório estava fechada, ele retornou a sala mais uma vez. O que ele iria perceber após a entrevista, é que não havia impedido ela de ver nada, pois ela tinha uma TV dentro do laboratório, com antena e tudo mais, podia ver até o nascimento de filhotes de papagaio ao vivo na África se quisesse.
Willians, padrinho de Bill e primo do Sr. Coll, havia acabado de chegar quando Bill finalmente retornou dos aposentos de sua irmã, sempre pontual, ele havia chegado 2 minutos antes da entrevista começar. Na TV estava passando um anuncio de sabonetes, a mulher estava toda molhada, e passava o sabonete de leve nas mãos e um pouco no braço, como se todo mundo usasse sabonete como uma pena que acariciava um pedaço de tecido de seda. Willians procurou o controle para mudar de canal, não agüentava mais aquele comercial, mas o controle estava com o dono, e nem tão cedo ousaria mudar de canal. Aquele momento foi decisivo, Willians se levantou e foi correndo para o banheiro, a pipoca estava com manteiga e açúcar, e o suco estava com sal suficiente para acabar com a pressão de qualquer ser vivo, talvez fosse por isso que nem as formigas e nem as moscas se aproximaram de tais obras da ciência moderna. – Semana passada, por exemplo, Willians tentou fazer uma surpresa para ele, que acabara de completar seus 17 anos. Além do bolo homicida de Érica, Bill acabou descobrindo toda a surpresa, como o pai dele não estava presente na festa, ele não aceitou ir até o lugar marcado, deixando assim os convidados ocuparem todos os banheiros do clube, com o bolo de alguma coisa com alguma coisa a mais, receita secreta de sua irmã. Não revelada até hoje.
Willians não é um simples padrinho, ele é um segundo pai, cuida dos seus filhos e dos filhos do Sr. Coll, mas por motivos desconhecidos, não os deixam se aproximar de um dos seus filhos, Alan, proibindo qualquer contato entre eles – como se isso impedisse algo, Alan estava sempre encontrando Érica às escondidas, e sempre que Bill achava uma novidade na internet corria para contar para ele. – Willians fica durante todo o dia com os seu filho e com a sua esposa, Josy, e a noite, ele fica com Bill e Érica. Na verdade ele acaba dando mais carinho para os seus sobrinhos, do que para o seu próprio filho.
Após longos dois minutos de espera, em um comercial sem fim, O programa Me conte mais, inicia. Bill agarra uma das almofadas do sofá com bastante força, a espremendo em seus braços, enquanto ouvia ao longe, as golfadas de seu padrinho, tentando expulsar a mistura que Érica havia preparado para o irmão. Ele sente uma mão sobre o ombro, por algum tempo uma sensação de carinho e conforto o consome, mas essa sensação é retirada violentamente dos ombros dele, um olhar assustado para o lado remove tal sensação, e enquanto o programa iniciava ele retornava seus olhos a focar a televisão.

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