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sábado, 13 de novembro de 2010

Prólogo: O Senhor Coll - Última cena (2008)

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Quando a porta se abriu eu podia jurar ter visto uma grande arena, em que me jogariam aos leões, quando realmente percebi onde estava pisando, vi que de nada mudara minha visão. Pessoas programadas para gritar, chorar, sorrir, apenas com um papel erguido por um animador de platéia. Perguntas cautelosamente selecionadas uma a uma, e entregue a cada um da platéia, para deixar tudo o mais natural possível. Kevin parou a porta e me deixou seguir, deixando escapar um boa sorte, que mal fora ouvido por mim. Estava faltando apenas algumas horas para que tudo voltasse a acontecer, não poderia hesitar em nenhum detalhe, nem desviar do assunto.
Não me recordo que horas são, o tempo que passo naquele quarto, me tirou a noção de tempo, creio que é dia, alguns focos de luz podem ser vistos quando a porta do outro lado da platéia abre para que novas pessoas da platéia, ou aqueles que retornam dos banheiros e lanchonetes possam entrar.
As entrevistas já haviam começado, não era só eu que estava lá, eu era assim, digamos a sobremesa. Os repórteres ocupavam a primeira fila da platéia, era um palco de teatro bem arrumado, luzes brancas iluminavam um corredor por entre a platéia, indo direto para o palco, aquele anfiteatro era usado para apresentações para loucos, todos os tipos de artistas da região passavam por ali, nem sempre eram loucos na platéia, eu sempre gostei do teatro, por isso mandei construir tal local. As encenações da vida real ou não real são como a mente de um louco, quando você se deixa envolver não se encontra mais a saída. Assim que entrei no palco, as pessoas começaram a aplaudir, vejo apenas a placa “aplausos” erguida, pessoas que não acreditam em mim, me consideram um louco, falam que eu tendo destruir a boa reputação que a cidade levou uma década para reconstruir. Naquele momento elas não podiam atirar suas pedras em mim, eram apenas robôs da sociedade que acreditavam ser a perfeita, e precisavam se comportar ali, para manter a boa aparência da cidade. Segui até a apresentadora, luzes me acompanhavam, uma música tocava ao fundo, consegui ver melhor o cenário que montaram para me entrevistar; são dois sofás, de cor vermelha, com suas pontas próximas, formando um ângulo de 90º, um pequeno centro de vidro entre eles, uma típica sala de espera de um escritório. Paredes amareladas, quadros com paisagens brasileiras, plantas em vasos grandes, perto de onde seria uma porta falsa, e algumas próximas da janela, que seguia para uma falsa paisagem de edifícios acalmavam o ambiente. Piso de madeira envernizado. Cheguei à conclusão de minha dúvida, aquele cenário parecia com o mesmo usado no programa de comédia Sai de Baixo, só faltava aparecer os personagens, e eu ser o convidado especial da noite, imaginem o que seria ser entrevistado pela Magda, acho que falta pouco para descobrir isso, pois a apresentadora é uma irmã da mesma, genérica pra falar a verdade. Uma senhora bastante elegante, e de um belo rosto, o azar dela foi sair na revista Achados e Perdidos, revista de fofoca mais vendida na cidade, ela estava à mesa de espera quando fui fazer um exame de vista, há uns 2 anos atrás. Uma das noticias mais lidas era de sua cirurgia para por silicone nos seios, e as esticadas de pele no seu rosto, e nádegas, agora se tornou bastante difícil dizer a idade dela, mas lembro de um comentário abaixo de uma de suas fotos, em que o rapaz dizia: “se um dia ela me perguntasse que idade eu daria para ela, responderia o seguinte: se nem mesmo Adão e Eva sabem como você apareceu no paraíso, como eu saberia que idade tens?ou então responderia: você quer saber em séculos ou milênios? Eu imagino que essa resposta naquele momento tiraria toda a seriedade do programa, o tornando realmente em uma comédia. Consegui me lembrar o nome dela e o nome do programa antes que ela chegasse a mim, o programa se chama “Me conte mais” e a entrevistadora se chama Ellen, ou Helena para quem leu sua certidão. A maior fama desse programa são as entrevistas as vitimas ou acusados da alta sociedade, a pessoa não precisa ser famosa, apenas precisa ter dinheiro o bastante para se envolver em algum escândalo.
Ela fez todas as apresentações, os convidados que já haviam sido entrevistados permaneciam lá, ao fim da minha entrevista todos iriam falar um sobre a entrevista do outro. Estava lá o escritor de um romance sobre uma jovem que se apaixona por uma flor, e morre tentando pegar essa flor que voa para um lago, lá estava também uma ex-prostituta, que agora desenhava caricaturas para um jornal em outra cidade, e que resolvera de uma hora para outra morar aqui. Como eu saberia dessas coisas? Nem ao menos vi as entrevistas deles. Alguém poderia ter me dito, já que não tive contato com o livro ou com a ex-prostituta, nem ao menos vi reportagens sobre eles, apenas meus olhos me contaram isso nesse momento. Ela mal me anunciou e uma garota gritou do outro lado da platéia:
      Sr. Coll, é verdade que o senhor vai passar na televisão em todo canto do mundo.
Aquela voz não me era estranha, era muito familiar. Meus olhos, não podia acreditar no que eu estava vendo ali, Minha filha Érica, ela conseguiu de alguma maneira enganar o irmão, seus intuitos são bons, mas ela não podia estar ali, e eu não podia demonstrar que não era aquilo que eu queria. Seus enormes cabelos loiros com um leve tom castanho, a destacava das outras pessoas, sempre bem arrumada e no estilo, nem parecia ser a NERD, como dizia Bill, seus olhos azuis brilhavam em meio a tanta luz, seu sorriso era encantador, lembrava bastante o de sua mãe. Ao lado dela estava o culpado dela estar ali, o seu melhor amigo, Alan, um rapaz jovem e muito medroso, cabelo castanho claro, passando em frente aos seus óculos, cabelos que ele sempre coloca atrás da orelha, mas sempre insistem em retornar, olhos verdes, parecidos com os meus, antes dos problemas dessa cidade, ele aprendeu algumas artes marciais para poder proteger a sua inseparável amiga, mas quem olhar nos olhos dele vai ver apenas uma doce criança, que ainda acha que um dia irá se tornar um Super Herói – aquele rapaz sempre acreditou em minhas palavras, e sempre vem me visitar junto com a minha filha.
      Claro Érica. – sabia que aquilo não aconteceria, provavelmente a emissora sairia do ar, ou as fitas não seriam divulgadas, não era um programa ao vivo, tudo seria editado antes de ir a rede nacional.
A entrevistadora interferiu uma possível continuação, já devia ter a pessoa da primeira pergunta em mente, e Érica havia quebrado isso, o interessante era a risada da Ellen, coloque um cavalo ao lado dela e o faça relinchar, ela irá ganhar. Sinto muito em interferir essa reunião familiar, mas acho que devemos dar continuidade a entrevista! Ah que voz irritante, ela deve ter engolido um sapo, ou bebido água de chocalho, e para ela dar uma risada tão irritante, acho que ela deve ter comido carne de palhaço, do contrário, antes de chegar aqui ela foi atropelada pela “Arca de Noé”. Percebi então que era bem melhor ser entrevistado pela Magda.
      Sr. Coll é verdade que o senhor irá nos contar realmente o que aconteceu no início das construções da nossa cidade? Incluindo o que aconteceu com os antigos moradores daqui e com alguns dos seus parentes? – perguntou ela com aquele irritante tom de voz.
      Claro, vou lhes contar tudo a partir desse instante. – passei uma de minhas pernas sobre a outra, colocando a minha mão esquerda sobre os joelhos, enquanto limpava o meu ouvido com a direita, em seguida apoiei o meu braço direito no braço do sofá. – Não enrolarei, vim contar uma história e não responder perguntas, se o tiver que fazer, esperem até eu terminar de falar. – Esperei alguma reação, mas ninguém falou mais nada - Tudo começou quando ele estava achando meio complicada a rota do terreno que havia comprado para construir o seu maior sonho.
      Ele quem? – perguntou a Ellen.
        Olhei para ela, irritado com a sua intromissão, pois ela sabia que não era necessário fazer essa pergunta naquele momento, então imitei o seu riso insuportável. Usando um tom mais calmo de voz continuei:
         Espere, logo você irá saber. Agora me deixe continuar. – baixei a cabeça por alguns instantes, para poder tomar um pouco de fôlego, então continuei a conversa. Mesmo sendo difícil falar mais uma vez sobre aquilo, e tendo indiretamente prometido a Bill não falar a verdade, sabia que não deveria mais guardar tantas coisas, mentir naquele momento só iria me trazer mais problemas. É o momento de falar apenas a verdade. – Era um estado por onde ele ainda não havia andado, Edwart estava totalmente perdido, o mapa do lugar, onde ele havia encontrado um terreno do jeito que ele precisava, para começar a construir seu sonho parecia não ter posição correta, Kelso ajudava o pai, enquanto seu irmão Hawk’s estava reclamando o tempo todo, de tudo...

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