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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Prólogo: O Senhor Coll - Segunda cena (2008)

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Enquanto estou em um mundo de loucura, meus olhos permanecem fechados e eu posso ver a verdade. Passei os longos últimos 23 anos da minha vida tentando alertar as pessoas do que meus olhos viam quando se abriam em meio a toda aquela insanidade. Foi tarde demais quando os avisei pela ultima vez, não havia mais tempo, e eu não possuía mais forças para salvar ninguém. Ainda me lembro do dia da entrevista que aconteceu antes das trevas consumirem mais uma vez essa terra maculada pela maldição do Livro do Diabo. O que você está perguntando? Meu nome? Chamem aquele que vai dar a entrevista apenas de Coll, Sr. Coll. Falar meu nome ou o nome do entrevistado agora não terá graça, o que devia ser evitado já aconteceu, e nomes não ajudarão em mais nada a partir de agora.
Podia-se ouvir o som de correntes chocando-se contra grades ao longe, as portas trancadas rangiam como se abrissem e fechassem constantemente, o rangido de passos pela escada velha de madeira, ou os passos metálicos sobre a escada principal. O olhar perturbador de um velho, maltrapilho sentado ao canto de uma pequena sala, paredes cobertas com panos, para evitar que ele não se machuque enquanto bate a cabeça contra ela, mãos presas a camisa de força, amarrada em suas costas. A saliva seca em seus lábios, olhos fechados e remelentos, dentes que rangiam enquanto se chocavam em sua boca. O gotejar das infiltrações do teto do quarto faziam o chão estar sempre molhado, sem ter por onde circular o ar úmido irritava os olhos e nariz, inalar qualquer oxigênio naquele momento, era praticamente impossível, pois os ratos que passavam por baixo dos panos também estavam respirando.
Urina e fezes de rato espalhadas pelo pequeno quarto com uma única porta de ferro com uma pequena abertura em grade. Manchas de sangue seco se destacavam nas paredes e roupas do velho. Seus longos e ásperos fios de cabelo estavam sendo mastigados por ele naquele momento perturbador. Unhas roçavam contra o piso, mal cuidadas e cheias de sujeira. A ausência de alguns dentes e a futura perda dos outros, muito cariados, deixavam passar uma voz seca e rouca.
     Todos acham que sou louco... – por um momento sua tosse seca e contínua o deixa sem voz - ...mas isso é o que eles acham! Bando de patetas, falam isso somente por não saberem qual é a verdade ou por apenas não aceitá-la. – alguns passos são ouvidos fora da sala, ele tenta se levantar, mas a posição em que está, corpo acorrentado por sobre a camisa, pernas presas ao chão, no meio da sala, correntes que o suspendem, presas aos quatro cantos da sala o impedem – Provavelmente acham que irão viver felizes para sempre... – a tosse retorna, agora mais forte – ... quem disse que isto é um conto de fadas? Isto não é, e nunca será um conto de fadas.
Ele bate a cabeça mais uma vez contra a parede, uma leve mancha de sangue aparece sobre os panos.
     Ratos malditos! – Ele grita – Manipuladores, sanguessugas... – ele força os panos da parede com a boca, puxa um rato que ainda agoniza e o arremessa para traz, junto de outros ratos mortos por toda a sala – ...Hoje, como sempre, alguns repórteres virão até aqui. Eles não se cansam de ouvir a verdade! – grita enquanto se apóia na parede e caminha em direção a porta – Na verdade eles devem estar chegando a qualquer momento, e eu não deixei nenhum pouco daquela comida podre que me servem nessa maldita jaula.
Ele retruca palavras que provavelmente apenas ele entenderia, e abre seus olhos. Olhos azuis que emanam um leve brilho de mesma cor, suas pupilas dilatadas se dividiram, formando duas manchas, uma maior e outra menor em cada olho. Era difícil saber para onde ele olhava, parecia ver mais além.
     Me parece que eles já chegaram. – Ele vira rapidamente o rosto para a porta, seu cabelo branco e liso cai sobre os olhos, por alguns segundos, mas após balançar a cabeça para o lado eles voltam para o lugar – É provável que eles vão me fazer algumas perguntas. – Sussurrou com sua voz calma – Porém as respostas que eles estão esperando neste momento, não vão ser aquelas que eles querem ouvir. – Pra falar a verdade, elas nunca serão.
Passos fortes são ouvidos ao longo do corredor, após alguns poucos segundos o encaixe de uma chave à porta conclui o fim do silencio naquela cela. Outras chaves balançam enquanto ela gira, destrancando a porta da cela do velho. A porta se abre, e um homem gordo entra na sala.
Kevin, 98 quilos, 1,68 metros, 28 anos de idade, mas aparência de 35, olhos, pele e cabelos negros como a noite, lábios grossos, rosto arredondado. Barba rala e mal feita, cabelo baixo, mostrando a calvície precoce que o atinge. Entra na sala vestido em uma camisa e calça brancas, um tênis preto, com algumas costuras na lateral. Diferente dos homens de mesma idade, Kevin não era muito estudioso, após uma crise depressiva veio parar nesse manicômio e mesmo depois de ter alta nunca mais saiu. Trabalha como um vigia diurno, já que a noite ninguém se arrisca a caminhar por esses corredores. Ele está sempre sorrindo, sabe-se que seus pais o abandonaram e ele teve que se virar para conseguir viver, mesmo assim ele está sempre feliz com a vida que leva. Quando ele abre a porta e entra na sala as luzes se acendem, o branco das paredes e do chão de cerâmica reflete por alguns segundos a luz forte contra os olhos do velho, roupa e sala totalmente branca, apenas um louco inventaria um aposento desse nível.
Kevin também é o meu enfermeiro e escudeiro fiel, ele se aproxima, agora consigo fitar meus olhos nele, a escuridão do meu quarto deixou minha vista um pouco cansada, mas com o tempo acostumei com esse efeito.
     Sr. Coll, não sei como você ainda pede para ser trancado em um quarto desses, devia se aproximar dos outros pacientes desse local. – ele sorri – O dia nasceu tão bonito lá fora, devia ver, um casal de canários fez ninho na árvore da velha Antônia... – ele para e pensa um pouco - ...já ia esquecendo, o senhor tem visitas.
     Tire a camisa de força primeiro Kevin. – Todos os dias era a mesma coisa, ele tentava me convencer a sair, e acabava esquecendo que eu estou vestido em uma camisa de força – Você sabe que eu odeio deixar as visitas me esperando, por isso na próxima vez seja mais eficiente. – Sei que devo ter ofendido um pouco ele. Um pouco não, bastante. Mas quando falei aquelas palavras, senti uma sensação diferente. Era uma sensação de alívio.
Ele desatou os nós, e enquanto eu tirava a camisa ele foi buscar um terno, minha calça e os meus sapatos, colocou todos eles na minha frente e saiu em seguida – e como eu sei, ele esqueceu da gravata – Vesti o terno, pois já estava com uma camisa branca de botões – estava meio amassada, mas também o tanto que esta camisa de força estava me apertando, acabei me mexendo tanto que amassei toda a roupa – Pelo menos o terno cobria a camisa, e ninguém ia nem perceber isso. Ele estava meio apertado, mas também, há quanto tempo não o vestia. – Tirei o short e vesti a calça, que estava bastante confortável, a ganhei há pouco tempo, ela foi um presente do Kevin. – Ainda me lembro do que ele disse quando me entregou a calça – Sr. Coll, as roupas que o senhor veste são horríveis, para um prefeito. Acho que essa aqui será a melhor de todas elas. – quando Kevin se referiu a mim como prefeito, percebi que ele já sabia que o prefeito Willians vinha todos os dias aqui para me pedir ajuda em tudo. Calcei os sapatos logo em seguida, a meia estava com uns belos furos, o sapato foi presente de meu filho, Bill. – Bill... há quanto tempo não o vejo, espero que assista a minha entrevista hoje.
Estava meio distraído e acabei por levar um susto quando Kevin entrou na sala de supetão, ele não usava mais seus trajes brancos, seus novos trajes eram muito parecidos com os trajes de guarda-costas, camisa social, um pequeno jaleco e calça jeans preta, até o fone de ouvido ele tinha, o que não mudava era o tênis. E como eu havia dito antes, ele estava com a gravata em sua mão.
     Aqui está a sua gravata Sr. Coll. Vou levá-lo até o banheiro para que possa pentear os cabelos, lavar o rosto e escovar os dentes, não sei por quanto tempo irá conservar esse sorriso branco se continuar nesse quarto. – coçou a cabeça – Para que o senhor não entre fedendo eu trouxe esse perfume aqui. – disse enquanto me entregava um frasco transparente que continha um líquido azulado. – Vou entrar lá com o senhor, se me virem vestido assim irão pensar que sou seu segurança, assim eles vão lhe respeitar mais. – ele coçou a cabeça mais uma vez – Eles já estão lhe esperando...
     Não precisa se preocupar tanto Kevin, só precisa me levar até lá! – o interrompi. – O resto pode deixar que eu mesmo faço.
     Claro Sr. Coll, desculpe-me por isso, mas vou entrar naquela sala com o senhor, se alguém tentar agredi-lo de qualquer maneira eu vou interferir. – retrucou.
   Sei que Kevin ficou meio sem graça com o que eu lhe disse. Mas também, quem não ia ficar, pois na verdade ele só está querendo me ajudar, e dessa vez eu não irei desperdiçar.
Depois da morte dela, a Sra. Coll. – Porquê fez isso comigo meu amor – Os meus olhos começaram a se encher de lágrimas, até que uma desceu ferozmente pelo meu olho direito, tentei a engolir a seco, para ver se conseguia destravar a voz na garganta, mas quase não consigo falar.  Era uma sensação de ódio e rancor muito grande, tentei disfarçar, não imaginava que aquela maldita lágrima cairia.
     Me desculpe por isso Kevin.
Por um momento, achei que ele não tivesse ouvido, ele apenas seguiu adiante, me levando ao local onde estava a iniciar a reunião.
     Pronto, chegamos Sr. Coll. – falou Kevin em frente à porta – Os repórteres estão do outro lado dessa porta lhe esperando, e não se preocupe comigo, eu entendo e acredito em você.
Nesse momento Kevin não conseguiu mais segurar o choro, e acabou deixando cair algumas lágrimas pelos seus olhos. Com vergonha das lágrimas que caíram. Kevin tirou um lenço do bolso da calça e as enxugou. Não consegui o agradecer naquele momento.
        Ele então guardou o lenço e foi abrir a porta.
     Espere Kevin. – segurei sua mão. – Obrigado – murmurei acreditando, que mesmo em voz baixa ele tenha escutado aquelas palavras.
     Me prometa que irá salvar o máximo de pessoas que puder.
     Não posso. Só aqueles que acreditam! – soltei a mão dele.
     Entendo – disse ele, percebendo que não repetiria.

2 comentários:

Felipe Freire disse...

É um bom começo. KPSKS Veremos o restante :)

Remyton disse...

Muito interessante!! Uma otima historia, o começo muito, o restante na certeza de ser melhor ainda....Muito instigante!!!