6
Vitrines de vidro estavam a lateral da entrada da loja, sem nome nem placa, apenas podia-se dizer ser uma loja de roupas, manequins de madeira com pedaços faltando, alguns sem cabeça, outros sem um braço ou perna, no total 5 em cada lado. O sol batia na vidraça e refletia um pouco na entrada, deixando o ar até mesmo mais seco que o lado de fora. Os olhos de Kelso ainda doem um pouco, não parece ser uma loja comum agora, um longo corredor, um pouco escuro, seguia após as vitrines. Creio este lugar possa ser uma pequena galeria. – Pensou.
Ele não consegue ver sinal do pai ou da jovem garota, Luciana. Pra falar a verdade ele não consegue ver ninguém.
Varias portas, aos dois lados do corredor, e no fim uma pequena área de sol, ao lado de uma escada que leva até o primeiro andar. Rosas e algumas samambaias plantadas na área de sol, plantas bonitas, o aroma suave e doce das rosas podia ser sentido de onde ele estava, deixando o ambiente mais agradável, deu alguns passos a frente, a procura de algum som, que pudesse indicar que havia alguém por ali. Aquelas rosas, não podia evitar, eram muito bonitas, semelhantes a que sua mãe plantava no jardim da casa onde moravam antes dela ser assassinada. Algumas lagrimas saíram suaves e desceram por seu rosto, ele as enxugou com o pulso, e sorriu. Caminhou mais um pouco pelo corredor, uma porta lhe chamou a atenção, conseguia ouvir pequenos barulhos vindos do outro lado. Quando encosta na porta, sente o impacto, um corpo o atinge, uma senhora se choca contra ele, derrubando a bandeja que carregava, quebrando todos os copos, manchando o chão e os sapatos dele com café, ainda quente. A senhora tenta se segurar nele, mas por causa do café quente em seus pés Kelso se afasta, desequilibra e os dois caem no chão.
Por sorte ela não cai sobre os cacos dos copos nem sobre o café, mas acaba de cara no chão, já Kelso cai sentado.
– Mil perdões senhora.
Kelso se levanta e preocupado ajuda a senhora a se levantar.
– A senhora está bem? – observa o rosto dela a procura de algum hematoma – Se machucou?
– Não, não se preocupe, já estou acostumada. – falou enquanto se abaixava para recolher os cacos de vidro espalhados no chão.
– Deixe-me ajudá-la. – ele se abaixa e começa a ajudá-la a recolher os cacos espalhados no chão.
Cabelos longos e cacheados, em uma senhora com um pouco mais de 1 metro e meio de altura, Saia longa e blusa sem decote, óculos de armações grossas, branca, olhos negros e pele um pouco bronzeada, aparentava ter uns 27 a 28 anos de idade
– Não precisa se preocupar rapaz, nunca o vi por aqui, posso lhe ajudar em algo?
– Claro. – continua, levantando-se – Preciso encontrar meu pai, e uma jovem chamada Luciana.
A senhora olha um pouco assustada para ele, se levanta e arruma e leva os cacos para dentro da sala que acabara de sair.
– Me acompanhe rapaz, estava levando o café até a sala onde os dois estão a conversar.
– Me chamo Kelso, falou ele enquanto entrava na pequena sala.
Uma sala pequena, janela aberta dava acesso a rua, um vaso com uma pequena palmeira plantada, dava um pouco de vida ao espaço, uma mesa, varias gavetas de arquivos, muitos papeis sobre a mesa, e um pequeno armário ao qual a senhora pegava copos novos e uma garrafa de café.
– Não se assuste com a bagunça Kelso. – ela pega um pequeno pedaço de pano, despeja os cacos em uma lixeira e passa o pano sobre a bandeja. – Me chamo Josicleide, sou secretária da Luciana, e cuido do administrativo dela.
– Vejo que ela deve ter muitas terras e outros negócios também. – ele olha ao redor, enquanto a senhora Josicleide passa por ele – Pela quantidade de arquivos e papeis nessa sala.
– Nessa sala está apenas uma parte dos arquivos, na sala a frente estão os mais antigos, mal se consegue entrar na sala. – sorriu, enquanto colocava café nos copos. – Você vai querer café também Kelso?
– Não bebo café, obrigado.
Ela pega a bandeja novamente, e sai da sala, ainda com o pano em mãos.
– Poderia segurar a bandeja para mim por um momento Kelso?
– Claro. – ele pega a bandeja
– Ela não só é dona das terras dessa cidade, como também a dona de muitos comércios em cidades vizinhas, algumas fazendas. – ela se abaixa e limpa o café do chão com o pano.
– Você sabe como ela conseguiu essa fortuna? – indagou ele – Herança, jogos, qual o segredo?
Ela olha para Kelso e em seguida o responde.
– Olha Kelso, se você puder guardar um segredo, gostaria que não a contasse sobre esse nosso acidente, certo?
Kelso achou aquilo estranho, mas não demorou a concordar, acenando com a cabeça.
Ela leva o pano até a mesa, e em seguida volta e pega a bandeja de volta das mãos de Kelso.
– Obrigada, agora vamos até a Luciana, me acompanhe.
Os dois seguem pelo corredor, ao final do mesmo, Kelso percebe que após uma porta a direita do corredor, segue outro corredor, caminham mais um pouco, até chegar a outra porta dupla. Essa é um pouco diferente das outras, madeira escura, bem antiga, porem bastante conservada.
– Espere um momento aqui garoto, vou verificar se pode entrar.
– Não precisa, eu sempre participo das reuniões do meu pai, com certeza ele deve estar me esperando.
Ela sorri.
– Você não conhece a senhora Luciana, aguarde um pouco, será rápido.
Ela empurra a porta com as costas e entra, Kelso consegue ver de relance o rosto do pai, e ouvir as reclamações da Luciana por causa do atraso da Senhora Josicleide, em seguida apenas o silencio. Se sentiu sonolento por um momento, um pouco zonzo, talvez tenha tomado muito sol, mas após uma sensação de formigamento pelo corpo, ele se sente melhor.
– Pronto Kelso, pode entrar.
Ele não percebeu a hora que ela voltou, mas ela percebeu claramente que ele não está se sentindo bem.
– Algum problema garoto?
Kelso vai até a porta e a abre.
– Não Josicleide, apenas uma leve tontura, devido a um longo dia de viagem debaixo desse sol do sertão. – continuou – Ainda não estou acostumado com esse clima.
– Eu vou buscar um copo com água para você, entre e se sente, será rápido.
– Obrigado.
Kelso entra na sala, seu rosto suado, vários pensamentos invadindo sua mente, de maneira desalinhada. Será que vou viajar novamente em minhas lembranças do passado? – pensou.
Não demorou muito, seus olhos brilharam novamente, em uma cor azulada, o calor na sala era muito intenso, podia ver o vapor subir do piso, se aglomerando na sala, e tornando a respiração quase que impossível.
Ele começa a ficar ofegante, a respiração fica cada vez mais difícil, o piso de madeira começa a arder em brasa, e se torna carvão, as mesas de madeira, estante, entram em chamas aos poucos, ele vê ao chão, o corpo de um homem arder em chamas, ele agoniza, e começa a entrar em chamas também. Quando abre os olhos novamente, a sensação passa, a enorme dor que sentia no seu corpo se vai, sua respiração e seus olhos voltam ao normal, ele percebe então que foi apenas uma simples ilusão.
Apenas você consegue ver a verdade por trás de tantas mentiras meu filho.
– Se sentindo mal de novo meu filho? – indagou Edwart.
– Vou chamar a Josicleide para lhe pegar um copo com água. – comentou Luciana.
Mas antes que ela se levantasse, ele olhou para eles, e fez um gesto com a cabeça que não.
– Obrigado, mas eu já me sinto melhor, foi apenas um mal estar, já até pedi água a Josicleide, ela deve estar trazendo já.
– Bom, já que está bem, sente-se conosco, estou negociando com a Luciana, sua ajuda será bem vinda, e seus conselhos são sempre os melhores.
– Obrigado pai. – sentou-se ao lado do pai, enquanto Luciana se sentava a sua frente.
Luciana e Edwart olham meio que sincronizados para Kelso, que tenta disfarçar, desviando o olhar para um quadro a parede.
– Bom, eu apenas me senti um pouco zonzo, já disse, me sinto melhor, podemos continuar com as negociações. – continuou – Bonito aquele quadro não? – concluiu.
– Entendo. – retrucou Luciana – Acho que não é hora para conversarmos sobre esse assunto não acham?
– Claro! – afirmou – Aproveitando o momento. – colocou os óculos que estavam em seu colarinho – Bastante interessante esse quadro.
Observando melhor o desenho no quadro, não é nada demais, apenas um Y deitado, a cor usada na pintura é um vermelho bastante intenso, o símbolo está sobre uma tela branca, sem assinatura do pintor, ou qualquer marca que transpareça o que ele vem a representar.
A paz e calma no interior de Edwart se confundem com dor e angustia, ele provavelmente já viu aquele símbolo em outro lugar. Fixa por alguns segundos o estranho símbolo, ignora todos os sons a sua volta. Regula sua respiração, se concentrando apenas naquela imagem. Era tarde da noite, chovia bastante, ele estava chegando em casa após um longo dia de negociações no trabalho. Quando desceu do carro, e correu até a porta de sua casa, se protegendo da chuva com o jornal do dia em sua cabeça, ele percebeu que a porta estava aberta – não era normal isso acontecer, Mary sempre fechava a porta naquele horário, as ruas não eram tão seguras como antigamente – olhando para o chão ele conseguiu ver várias pegadas de lama feitas por pequenos pés, era provável que ela estaria brigando com seus filhos dentro de casa, os colocando para limparem toda a bagunça.
Era uma casa simples, sem muito luxo, todas as casas no bairro eram iguais, e mantinham a tradição da boa vizinhança, se ele tivesse demorado a chegar, logo um vizinho teria ido a sua casa verificar se algo de errado estava acontecendo.
Havia juntado um bom dinheiro, e comprado um belo vestido de seda, na cor azul, que ela tanto desejava ganhar. Vimos esse belo vestido quando saímos a ultima vez para almoçar, prometi para ela que o compraria assim que conseguíssemos juntar um bom dinheiro. Quando entrei, tirei meu casaco e meu chapéu ensopados e o coloquei no cabide ao lado da porta, sacudi e limpei os meus pés quando entrei, evitando sujar ainda mais a casa, tirei meus sapatos e sequei os meus pés no tapete de boas vindas.
Entrei na ponta dos pés, evitando fazer barulho. Alem do vestido, havia comprado alguns doces para as crianças, se eles me vissem antes de sua mãe, provavelmente teríamos um segredo com ela, e eles acordariam com os dentes doendo no dia seguinte.
Ouvi a voz da Mary, estava a discutir com alguém, consegui ouvir a voz de outra mulher, mas não era muito clara a conversa das duas, me aproximei devagar, elas estavam na cozinha, e as pegadas dos meninos levavam aos quartos no primeiro andar.
A discussão das duas estava mais intensa, foi então que ouvi um grito aterrorizante da Mary, seguido por passos descendo a escada, os meninos chegaram a cozinha primeiro que eu, Kelso estava vidrado olhando para aquela aterrorizante cena, enquanto Hawk’s chorava bastante. Corri, tapei os olhos de Kelso e abracei os dois as pegadas que antes eram de lama agora estavam banhadas no sangue da minha esposa, cai de joelhos ao chão, abraçando meus filhos, não tínhamos como salva-la, ela havia sido dividida ao meio. Sua parte superior estava ao teto, pingava sangue por toda a sala, Mary havia sido amarrada pelos cabelos ao lustre, enquanto suas pernas estavam em forma de cruz em frente ao misterioso símbolo na parede, feito com seu próprio sangue. A porta da cozinha estava aberta, mas não conseguia se ouvir passos, a chuva estava bastante forte do lado de fora. O símbolo era semelhante a este que estou vendo aqui agora nessa sala. – Mas qual o seu significado, o que os dois teriam em comum? Será que não estou confundindo as coisas? Será que não estou criando essas coisas de um passado que eu já havia apagado a tanto tempo de minha mente? – Tive minha mente invadida por vários pensamentos semelhantes, mas não poderia ficar com aquela incerteza, e nem reviver um fato que a tanto tempo já havia sido esquecido em minhas memórias.
Lagrimas se formam nos olhos de Edwart, antes que as lagrimas caiam ele tira um lenço de seu bolso e as enxuga.
– Agora eu que pergunto pai, o senhor está bem?
Edwart olha para Kelso e Luciana.
– Quem pintou esse quadro?
– Não se preocupe, esse quadro tem um misterioso dom de fazer as pessoas chorar. – comentou Luciana.
– Mas quem o pintou?
Kelso percebeu que havia algo de estranho no que seu pai falava, nunca teve interesse algum em obras de arte ou pintores, por que a insistência em saber sobre aquilo?
– Pai, pelo que eu vejo não há nenhuma assinatura no quadro, provavelmente foi um autor anônimo, então vamos continuar com a negociação, já está quase anoitecendo, e estamos viajando a horas. – comentou – Vai acabar exausto.
– Como disse o seu filho, esse quadro é de um pintor anônimo, quando me mudei para essa sala ele já estava aqui.
– Mas você sabe o que o símbolo significa? – Insistiu.
– Não.
Algo de estranho estava acontecendo, não somente com seu pai, mas com a Luciana também. Nunca ele insistiu tanto em saber de algo, e ela estava mentindo com certeza. O jeito de falar, o olhar, a maneira de movimentar as mãos enquanto fala. Mas olhar para ela era diferente, mesmo sabendo que era mentira o que estava dizendo, ele percebia que o pai estava cedendo. Seria o poder de sedução de uma mulher superando o poder de persuasão do meu pai? Não, era algo a mais nela. Foquei meu olhar nela, observei seu corpo, sua maneira de pensar, apenas olhando pelos seus movimentos. Fiquei calmo, controlei minha respiração, espere, realmente algo diferente está acontecendo, sinto como se mais pessoas estivessem nesse momento na sala alem de nós três. Por um momento pensei ter visto um vulto, próximo a ela, foquei mais, e percebi varias movimentações sobre sua pele, era algo hipnotizante, como ondas de energia azulada, fina, suave, e quase transparente, moldavam formas confusas a sua volta, evitei olhar por muito tempo, mas ao meu primeiro desvio de olhar, acabei por perder tais formas de vista, Luciana estava olhando para mim, seria e um pouco irritada, não conseguia parar de olhar nos seus olhos, por sorte meu pai a chamou a atenção, e eu consegui desviar o meu olhar.
– Como estávamos conversando antes de tantas interrupções, 500 milhões de dólares e todas as terras das ruínas dessa cidade e algumas fazendas próximas serão suas.
Kelso se assusta, para terras tão inférteis e um local tão mal cuidado, esse valor era extorsão.
– Bom, o valor está bastante elevado vendo as condições das terras, e o risco biológico que pode vir a nos oferecer, tendo as circunstâncias da nuvem negra ter caído sobre a cidade a alguns anos atrás. – comentou Edwart – 350 milhões é o que eu posso lhe oferecer no momento e, foi esse o valor combinado nas nossas negociações.
– Tendo em vista os problemas trazidos na guerra, o misterioso ataque, a fama dessas terras fora e dentro do Brasil, você não conseguirá outro comprador ou um valor melhor que esse. – continuou Kelso – Viajamos dois dias de carro para concluir o acordo combinado anteriormente, não pode voltar atrás na sua parte.
Luciana olha para Kelso, parece o analisar, observando cada detalhe.
– Acho melhor fazer logo o pagamento, e assinar o contrato, quero evitar qualquer tipo de confusão a essa altura. – continuou Edwart, tirando uma caneta do bolso da sua camisa e um talão de cheques do bolso da sua calça.
– Você parece ter esquecido algo que combinamos. – retrucou enquanto se levantava – Havíamos combinado que o pagamento seria feito em dinheiro, como percebi dês do inicio, não trouxe nenhuma sacola ou pasta, e muito menos teria deixado em seu carro, entregando a chave para o seu filho problemático, estou certa?
Kelso não sabia dessa parte do acordo, viajar dois dias por estradas tão perigosas com essa quantia em dinheiro não era algo inteligente a se fazer.
– Quanto ao dinheiro não se preocupe, poderá pegar o valor em qualquer banco a qualquer momento.
Ela sorriu
– Vejo que não entendeu, sem dinheiro, sem contrato.
Eles não a entenderam, Edwart havia aceitado pagar o valor que ela exigiu, e mesmo assim ela ainda colocou defeitos a ponto de não querer mais vender as terras.
– Pelo medo que está sentindo nesse momento em ir a um banco transferir tal valor, vejo que essas terras não são uma herança de família, e sim um produto de origem clandestina! – afirmou Kelso.
– Está errado garoto, essas terras foram passadas para o meu nome por vontade própria, sem erros ou enganações. – concluiu.
– E por que não aceita o cheque?
Ela levantou, foi até a janela, e olhou rapidamente para a rua, depois disso olhou novamente para nós, e prosseguiu.
– Olhe, é até melhor para vocês, ainda podem retornar, e sair da cidade antes do cair da noite.
– Mas o que isso tem haver com o nosso contrato? – indagou Edwart.
– Nada, mas possuo outras propostas para analisar, se puderem me dar licença, ficarei grata em acompanhá-los até a saída.
Eles se levantam.
– Não me diga que acredita na lenda contada por aquele velho que abordamos na estrada.
Edwart sorriu.
– Foram alertados e mesmo assim continuaram?
– Claro! – afirmou Kelso – Lendas são coisas contadas para fazer as crianças irem pra cama mais cedo, ou evitarem fazer coisas erradas, todos sabem disso. – explicou.
– Olha, eu realmente não entendo o que acontece nesse lugar, mas não vamos sair daqui sem uma boa explicação. – Edwart se senta novamente, olha para Kelso, que faz o mesmo.
Luciana parece estar preocupada com algo, o sol parece estar desaparecendo no horizonte, a luz na sala fica um pouco fraca, mas após alguns segundos volta ao normal.
– Irei explicar apenas uma vez.
Mas antes que ela continuasse, a porta é aberta.
– Posso entrar minha querida irmã?
Levantamos assustados, a voz era grave, mas ao mesmo tempo suave e envolvente. Olhamos para a porta, e lá estava ele, bem vestido em seu terno e calças negros, camisa branca, gravata vermelha e, sapatos sociais. Jeito malandro, branco, olhar malicioso, cabelos negros desarrumados, olhos castanhos, parecia querer devorar a todos da sala.
Luciana fica nervosa com aquela aparição repentina, Kelso por sua vez não consegue o olhar nos seus olhos, sente como se seu sangue fosse ferver a qualquer momento.
Ele solta a porta, que fecha, se chocando contra a outra e produzindo um barulho forte de impacto. Todos os três se assustam, e o homem apenas sorri.
Era um homem misterioso e sombrio, seja no seu jeito de falar, olhar, ou a maneira que caminhava em nossa direção.
– Vejo que começou a reunião sem mim Luciana.
– Eles já estão de saída, Lu... Luci... – gaguejou.
– Bom, não precisa me apresentar, já que estou aqui, cordialmente irei eu mesmo fazer isso. – sorriu novamente se aproximando de Edwart – Meu nome é Luciano, prazer em conhecê-los, o Senhor deve ser o Edwart, e o jovem Hawk’s, acertei? – apertou a mão de Edwart.
– Quase. – continuou Edwart – Este é meu outro filho, o irmão gêmeo do Hawk’s, Kelso.
– Que interessante. – olhou para Kelso – Não sabia que tinha Gêmeos. – continuou, olhando novamente para Edwart – Mas por que estão indo embora? Não gostaram de alguma coisa por aqui? – olhou para Luciana.
– Eles apenas estão de saída irmão, estou os acompanhando até a porta. – interrompeu – Vamos?
– Bom, você é o irmão dela correto? – comentou Kelso, vendo que ele acenou com a cabeça que sim, continuou – Então já que essas terras são herança de família, creio que também tem opinião quanto a venda delas.
– Claro, garoto esperto.
– Se aceitar um cheque, podemos comprar as terras ao preço que vocês pediram. – concluiu.
– Que nós pedimos? – Luciano olhou para ela. – Claro, pedirei para um de meus homens ir até Juazeiro pela manhã, fazer a transferência do dinheiro, não acham melhor?
– Sim! – afirmou Edwart – Então fechamos negócio?
Luciano passa por eles e senta sobre a mesa ao lado de onde Luciana está sentada.
– Está vendo como as coisas podem ser simples Luciana? – mexeu nas canetas que estavam sobre a mesa – não temos hotéis aqui na cidade, o que poderemos lhe oferecer essa noite é um dos quartos aqui da loja. – olhou para Kelso, enquanto equilibrava uma caneta entre os dedos – Pelo que eu observei lá fora, seu outro filho levou o carro.
– Aceitamos sim, eu e meu filho ficamos gratos com a hospitalidade.
– Creio que irão fazer bom proveito das terras, mas no momento tenho que conversar com minha irmã, poderiam nos dar licença?
Edwart se levanta, e faz sinal para que Kelso faça o mesmo.
– Entendo, estamos de saída, pela manhã acompanharei um dos seus empregados para fazer a transferência do dinheiro, e assinatura do contrato.
– Estou ansioso para ver o que pretendem construir nesse lugar, iremos colaborar com o pagamento e a construção de uma residência aqui, com certeza iremos nos esbarrar até o final das construções.
– Espero que esteja certo.
– Eu nunca erro, a Josicleide irá lhes levar aos seus novos aposentos, ela estava no corredor vindo nessa direção.
– Falaremos com ela, mais uma vez agradeço.
Os dois saem da sala.
Assim que eles fecham a porta, dão de cara com Josicleide, com um copo de água em mãos, ela olha assustada para os dois, que também se assustam com ela.
– Desculpem a demora, é bastante difícil achar um pouco de água potável por aqui, já que a maioria das casas daqui não tem saneamento e nem encanações. – explicou ela.
– Com um rio tão próximo? Ridículo isso. – comentou Edwart.
– A água do rio do lado da cidade é poluída, um lodo negro tomou de conta das margens, e ela tem um cheiro e gosto muito ruim. – explicou – Toda a água da cidade vem em carros pipa de juazeiro, o lado de lá é bem mais limpo.
– Veremos esse problema da água potável até o final da semana. – explicou Edwart
– Josicleide, o Luciano pediu que levasse agente até os quartos de hospedes.
Ela não mostrou muita alegria por isso, pelo contrario, estava assustada com o que disse.
– Vocês vão passar a noite aqui? – corrigiu – Vocês vão passar a noite aqui! – corrigiu mais uma vez – Então vocês vão passar a noite aqui, entendo.
Ela para, ainda segurando o copo, bebe alguns goles da água. Edwart e Kelso olham para ela, esperando por uma resposta.
– Tem algum problema Senhora? – indagou Edwart.
– Tem... – corrigiu – Não, não tem, irei levá-los até o quarto.
– Se não tem nenhum problema, por que tanto nervosismo? – insistiu Kelso.
– O quarto não está arrumado, e também não são dois quartos, é apenas um quarto com duas camas de solteiro. – explicou-se – Me acompanhem.
Kelso e Edwart com toda a certeza não acreditaram nela, mas resolveram segui-la, voltando pelo corredor e passando novamente pelas duas portas que os ligam mais uma vez o cheiro das rosas e o frescor do vento que passava pela janela, seguindo pelas plantas e tocando suas peles os deixam mais tranqüilos, e quando perceberam já estavam subindo as escadas para o primeiro andar e se deparam com um pequeno corredor. Josicleide os leva até o terceiro quarto, porta de madeira pintada em cor branca, algumas marcas do tempo revelam uma madeira não tão boa. Ao pé da porta arranhões, semelhantes aos feitos normalmente por cães ou gatos.
– Vocês tem algum cão ou gato aqui? – indagou Kelso.
– Não! – Josicleide se assusta com o tom de voz alto que ela mesma usou – Não, não temos nenhum cão ou gato aqui, essas portas são muito antigas, provavelmente de muito antes de chegarmos nessa cidade.
Retira uma grande quantidade de chaves em um mesmo aro, pega uma das maiores, inserindo ela na fechadura, abrindo a porta logo em seguida.
O ar quente sai do quarto, chão empoeirado, moveis cobertos, o quarto era grande, mas as teias de aranha no abajur não me deixavam mentir, a muito tempo ninguém ousava usar aquele quarto, talvez mais de um ano.
– Peço para que fiquem dentro do quarto e só saiam pela manhã, evitem andar nos corredores a noite ou deixar a porta aberta, muitos vândalos nesse lugar, então evitem sair a noite. – ela retira a chave do aro de chaves, e a entrega para Edwart – Pela manhã eu irei pedir para que alguém venha limpar o quarto, desejo a vocês uma boa noite, está escurecendo, e eu preciso voltar urgentemente para casa antes que seja tarde.
Ela acena e sai pelo corredor em passos acelerados. O som dos seus tamancos batendo fortemente ao chão vai ficando cada vez mais baixo, até não haver mais barulho algum.
– Kelso, me lembre pela manhã de ligar para os policiais, precisaremos reforçar a segurança, para que as construções venham a ser bem tranqüilas. – parou um instante, colocou a mão na cabeça, e socou a parede ao lado da porta – Droga! Esqueci que as malas estavam no carro, e acabei entregando ele para a droga do seu irmão. – deu a volta e fechou a porta – Onde será que está aquele irresponsável?
– Às vezes eu me pergunto pai, se o senhor se importa mais com os seus filhos, ou se o senhor pensa apenas no seu sonho e acaba esquecendo de nós?
Edwart silencia, e vai até as camas.
– Vou limpar o banheiro, e tomar um banho, quando eu terminar, procuro uma vassoura para limpar o quarto, dentro do meu casaco tem alguns amendoins, chocolates, e um pacote de batatas fritas. – Explica Kelso – Acho melhor o senhor comer, já que a noite na vila é perigosa, iremos seguir os conselhos da senhora Josicleide. – ele joga o casaco para seu pai e, continua com a conversa, entrando no banheiro – Se eu fosse o Hawk’s, teria feito o mesmo.
Edwart apenas ouve em silencio, enquanto tira os lençóis da cama. Espero que me devolva o carro inteiro Hawk’s, ou nem precisa voltar. – pensou.
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