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sábado, 3 de dezembro de 2011

Capítulo 1 - O inicio da era das trevas - Ultima Cena(1985)


     A noite invade a estrada aos poucos, apenas o silencio domina os arredores, os últimos raios de sol deixam o céu vermelho, até que um tom azul escuro começa a predominar. As estrelas são poucas no céu, nuvens pesadas de chuva começam a ameaçar um temporal que poderia cair a qualquer momento, também com o calor infernal que fez durante o dia, é normal que agora venha a chover.
     Isso não é algo que venha a me preocupar nesse momento – Pensou - Não é isso que me preocupa – viajou mais em seus pensamentos - Tantos segredos, tantas duvidas e dores, ele poderia tentar entender o que eu estou passando. Faz mais de dez anos que presenciamos aquela cena terrível, e ele nem percebe o quanto eu também estou sofrendo. – encostou a testa no volante do caro.
     Diversos pensamentos invadiram sua mente, dores duvidas, pesadelos, ele tentava entender as coisas que começou a ver na cidade, o vulto mergulhando na sombra daquela mulher, lembrou de uma história que sua mãe contava para ele e Kelso dormir. Ela adorava isso, ver nossos rostos assustados, e então nos sacudir, só para nos ver gritar de medo, ela era ótima em improvisar. Uma vez ela nos contou sobre uma bela dama, morena, olhos negros como a noite, cabelos que balançavam ao vento como cortinas de seda, que andava nas florestas. Uma antiga indígena, que chorava e sofria, mas não entendia que estava fazendo o mal, ao levar tantos homens a morte, tantos jovens a se perderem nas florestas. Sua sedução era imensa, que até mesmo as mulheres às vezes acabavam desviando olhares em sua direção. Ela conseguia chamar a atenção das pessoas sem palavras, todos viam que ela estava morta, seu corpo espectral condenava isso, mas mesmo assim eles a seguiam, mesmo depois de mortos. Minha mãe falava que ela era um anjo, e que um dia eu iria a ver, e ajudá-la, por que eu sou um garoto bom... Se eu sou realmente bom, por que eu não lembro da noite em que ela foi morta?
     Agora sou um homem, não posso mais me apegar a sonhos de infância, histórias de terror. Por que meus olhos insistem em encher com tantas lágrimas? Desse jeito não vou conseguir parar de chorar, talvez eu não tenha crescido o suficiente, mas o olhar frio e desprezível que ele lança pra mim, ainda dói.
     Hawk’s estava dentro do carro, no acostamento da BR, sem destino, sabia que mais cedo ou mais tarde teria de voltar, rosto sobre o volante, ele não estava em um bom momento, seus olhos estavam diferentes, há tempos ele não chorava daquele jeito, difícil amadurecer de forma tão rápida, como o seu pai queria, tanto ele quanto Kelso, não viveram uma infância, pularam direto para a adolescência, apagando todo o passado de suas mentes, mas com Hawk’s era diferente, ele parecia saber de algo mais, algo que no momento, nem ele mesmo se lembrava. Seus olhos já estavam vermelhos, chorava há um tempo. Ao perceber que a noite estava caindo, ligou o carro e se preparou para dar a volta, mas por que fazer aquilo? Não era o que ele queria. Desistiu e virou o volante novamente para a estrada, e seguiu com o carro adiante.
     Devido ao intenso calor durante o dia, o cair da noite formou um clima abafado, ele suava dentro do carro, mesmo com os vidros do carro aberto. Ofrio da noite em contato com o calor deixado pelo dia e uma leve garoa que começara, deu inicio a uma neblina, que aos poucos encobriu toda a estrada. Hawk’s ligou o farol do carro, distraído tinha esquecido, até perceber que estava muito escuro para se basear na luz da lua, continuou seguindo adiante, mas o seu campo de visão estava cada vez menor, ele sabe que nesse tipo de situação, o melhor a fazer é parar o carro no acostamento e esperar a chuva começar, assim a neblina irá baixar. Saber na teoria não era algo que ele pudesse se orgulhar, pois continuou seguindo sem parar, mesmo sabendo dos riscos. A todo o momento ele levava a mão aos olhos, enxugando as lagrimas que insistiam em cair, a chuva começou despercebida, a neblina foi baixando um pouco, mas o campo de visão de Hawk’s não ficou nada bom, não apenas por sua vista cansada, mas também pela umidade do ar, que estava embaçando o vidro do carro por dentro. Agora alem de levar a mão aos olhos ele estava limpando o vidro também, sem resultados. A chuva ficou mais forte, e cobriu ainda mais o campo de visão, quando ele resolveu finalmente parar o carro e esperar a chuva baixar, viu um vulto emergir da neblina, passando rapidamente, direto para o carro, o seu tempo de reação não foi muito rápido, atingiu ele em cheio, podia sentir o carro passar em cima de algo, como quem passava sobre uma lombada sem percebê-la na estrada. Ele freou o carro rapidamente, por pouco não capotou, a pista estava bastante escorregadia, o carro ficou atravessado no meio da pista. Ele deu a ré no carro, o levando ao acostamento, e correu para ver o que havia atropelado.
     –     Droga! – gritou, puxando o carro para o acostamento e saindo rapidamente dele.
    Começou a pensar loucamente em diversas coisas, seu coração acelerou, parecia querer sair pela boca. Começou a ouvi um gemido que vinha do vulto no meio da estrada, era um som abafado, a chuva caia forte, ele viu o vulto se contorcer, e uma mancha vermelha ao redor dela aumentar cada vez mais, espalhando-se muito rápido com a água da chuva, apressou o passo, agora podia ver melhor, era um garoto, deveria ter aproximadamente 19 anos de idade.
     –     Droga, droga, droga.. – repetiu constantemente, correndo para socorrê-lo.
Se aproximou do garoto, procurando ver a origem do sangramento, ele havia passado sobre as pernas dele, podia se ver um grande inchaço em sua perna direita, e um pedaço de osso exposto em sua perna esquerda, onde sangrava bastante.
     –     Espere um momento garoto, vou colocar os sinalizadores na estrada, e pegar o kit de primeiros socorros no carro, tenho certeza que não tem nenhum sistema de ambulâncias por aqui, vou estancar o sangramento, e lhe remover da estrada. – explicou – Eu não deveria estar fazendo isso, é perigoso, mas não tem mais o que fazer. – Colocou a mão na testa.
     O garoto olhava para ele com uma tristeza profunda, seus olhos derramavam lágrimas, ele estava bastante assustado.
      –     Sai daqui. – falou enquanto gemia de dor.
     Hawk’s parou por um momento, e tentou acalmá-lo.
     –     Saia daqui! - gritou.
     –     Não fique assustado, você não vai morrer, eu vou lhe ajudar...
     –     Saia daqui! – o interrompeu – Não percebe, eu não poderei mais fugir desse lugar, mas você pode.
     Hawk’s se abaixou, para tentar acalmar o garoto, se ele continuasse agitado do jeito que estava, o sangramento só iria piorar.
     –     Suma daqui, agora! – o garoto agarrou o braço esquerdo dele – Eu vou distraí-lo para que você possa fugir, continue pela estrada direto, e nunca mais volte a esse lugar.
     Hawk’s ergueu  o garoto com cuidado, o removendo do meio da estrada, levando ele até o acostamento. Em seguida correu para o carro, entrou e se preparou para ligar o carro, ia dar a volta com o carro, para poder ficar mais fácil a retirada do garoto da estrada. Olhou para o sangue em suas mãos, e imaginou como seu pai ficaria furioso. A chuva começou a cessar, ele agradeceu a deus por isso, mas o carro não queria pegar. A chuva tinha parado por completo, abriu a porta do carro, com o kit em mãos, porem quando olhou para trás, ele ouve um uivo semelhante ao de um lobo. Vindo da direção do garoto, o barulho estava muito próximo, era bem provável que por ali houvessem lobos, ele não conhecia a fauna da região, o animal poderia ter sido atraído pelo cheiro do sangue, tinha que se apressar, para evitar algo mais grave.
      –     Corra garoto! – gritou o jovem – Não há mais salvação para mim, ele já está aqui.
    Hawk’s se assustou com aquilo, mas continuou se aproximando, lembrou do celular, e voltou para pegá-lo no carro. Quando olhou novamente para o garoto, não podia acreditar no que viu.
     Um enorme cachorro de três cabeças, se moldava em toda a escuridão do matagal próximo a estrada. Olhos flamejantes, boca com enormes presas, um pelo negro e denso cobria todo o corpo da criatura, suas patas imensas removiam as plantas a sua frente como se fossem mero capim.
      –     Volte para o inferno demônio! – gritou o garoto.
     Hawk’s estava congelado, seu corpo não se movia, seus olhos lagrimejavam, sua boca estava seca, podia sentir o seu coração bater forte em seu peito, mesmo sem tocar sua pele. Seus joelhos fraquejaram, e ele caiu de joelhos ao chão, não conseguia conter o pavor que estava sentindo, era algo irreal, algo visto apenas em filmes ou ficção. Nem mesmo nos filmes de terror que já tinha visto nos cinemas eram tão reais.
     –     Acho que já disse mais de mil vezes para ninguém da vila tentar fugir. – diz uma das cabeças – Você já sabe qual é a punição para quem tenta fazer isso. – continua a segunda cabeça – Não sabe? – completa a ultima cabeça.
     O cachorro se aproxima lentamente do garoto, Hawk’s recupera o movimento das pernas, e levanta rápido, entra no carro e procura algo para assustar a criatura, enquanto ele ajuda o garoto, mas ao olhar pelo retrovisor, vê que não há ais o que fazer.com uma mordida segura, a cabeça do meio ergue o garoto pela cabeça, enquanto as outras duas o estraçalham. O garoto não teve tempo de sentir dor, tudo aconteceu muito rápido, em menos de três segundos, a criatura já havia devorado ele.
         Droga! – Hawks colocou o cinto de segurança, fechou a porta do carro, e voltou a tentar ligá-lo – Vamos, pega, pega, pega...
    O cachorro percebe a presença dele, e começa a andar lentamente na direção do carro. Hawk’s se desespera ainda mais, quando percebe isso. O carro não quer ligar.
     –     Olha, mais um brinquedinho – diz uma das cabeças enquanto solta uma risada grave e estridente – Não precisa se desesperar garoto. – comenta a segunda – Logo você também irá morrer.
     Hawk’s tentou mais uma vez, dessa vez com sucesso, passou a primeira marcha, e acelerou o carro, que deslizou um pouco na pista de asfalto molhada, seguindo adiante a toda velocidade.
     –     Se você quiser me pegar, você terá que ser muito mais velos que eu, e eu digo para você, isso é impossível.
      O cachorro começa a correr atrás do carro.
     Hawk’s está desesperado, não sabe o que fazer, ou em quê pensar. Procurou onde o mapa estava, mas em seguida lembrou que Kelso havia levado com ele.
     A chuva retornou, primeiro acompanhada de fortes ventos, em seguida trovoadas podiam ser ouvidas ao longe, até que novamente a chuva começou a cair, ficando cada vez mais forte. Ele olhou pelo retrovisor, e se assustou com o que viu, a criatura não mais o perseguia, não havia sinal dela na estrada, ele ficou bastante aliviado com aquilo, mas não era momento para descansar, tinha que relatar o ocorrido para as autoridades. Pensou mais um pouco, era loucura relatar aquilo para as autoridades, iriam chamar ele de louco, e depois ele não conseguiria mais manter uma conversa com tantas risadas. Sem contar que ele não tem carteira, e ainda por cima está no carro do pai com as mãos sujas de sangue. Com tantos problemas, ele consegue pensar apenas em uma pessoa, o rosto de Luciana não para de vir a sua mente, sempre em fragmentos, mas não com o mesmo olhar, ela estava mais furiosa.
     Eu acho que a conheço de algum lugar – pensou.
     A chuva de uma hora pra outra começa a ficar mais fraca, o caminho adiante finalmente foi revelado, os faróis do carro conseguem revelar com mais clareza o que está adiante. Isso poderia ser algo bom, mas naquele momento não.
     Meu coração quase parou, a criatura estava bem à frente, parada no meio da estrada, o seu odor estava no ar, e seus olhos flamejavam. Não sabia o que fazer, só consegui me apegar a Deus, suas enormes presas estavam amostra, uma das cabeças parecia zombar dele, enquanto as outras duas se mantém sérias, o olhando fixamente. Seu pelo negro ensopado pela água da chuva, brilhava com a luz da lua, um brilho negro e assustador. Olhei ao redor, a procura de uma salvação, foi muito rápido, acelerei o máximo que pude e, joguei o carro a esquerda da criatura, o carro quase capotou, passou por cima de muita vegetação, cactos, arbustos, senti que ele ia parar, mas não foi dessa vez, continuei até uma estrada de terra que se ligava a avenida, agora com o brilho da lua conseguia ver a criatura ao longe, ainda seguindo o carro pelo meio do matagal, entrando na estrada coberta de lama e muitos buracos.
     VOCÊ NÃO PODE FUGIR GAROTO! – gritou uma das cabeças – Ninguém nunca conseguiu fugir de Cérbero, o Guardião dos Portões do Inferno! – A segunda voz soou no ouvido de Hawk’s, ele sentiu um frio na espinha, e evitou olhar para os lados, ignorando ela por completo.
     Ele olhou para o lado, entre os dois bancos, ao lado da caixa de marchas do carro, viu o celular, enquanto o carro balançava ao passar por tantos buracos na estrada, ele puxou o aparelho e ligou para o numero do escritório de Luciana que ele tinha decorado de tanto que ele havia ligado para ela a pedidos do seu pai.
     Vamos, alguém atende a droga desse telefone!
Ele insistiu em ligar 4 vezes sem sucesso, a criatura estava cada vez mais próxima, na sua quinta tentativa alguém atendeu a linha.
     Alô! – falou uma voz ao outro lado da linha.
A voz era familiar, para sua sorte era seu irmão ao telefone.
     Kelso sou eu, Hawk’s...
     Hawk’s? é você? Onde você está? Você está bem?
     Irmão, peço pra que não pense que eu estou louco... – parou e pensou um segundo – eu estou sendo perseguido por um demônio!
     Como assim Hawk’s? Onde você está? Que brincadeira mais sem graça é essa? – o tom de voz de Kelso estava diferente, demonstrando bastante preocupação.
     Você acha que eu ia brincar com uma coisa dessas Kelso? – continua ele – Tem um cachorro de três cabeças atrás de mim, será que isso não é o bastante?
     Onde você está Hawk’s?
     Eu estou em uma estrada de terra, acho que ela fica... droga! Não sei onde estou, estou perdido.
Kelso fala algo do outro lado da linha, mas ele não ouve, ao prestar mais atenção a frente, ele vê uma curva muito fechada, impossível de ser feita naquela velocidade que ele estava, 130km/h. Como na outra vez, ele acelera o carro, puxa o freio de mão e gira o volante, se aproveitando por a estrada estar molhada, o carro ameaça capotar, mas ele consegue controlar o equilíbrio, o carro fica sobre duas rodas por 2 segundos, em seguida já está ao chão novamente, virado de frente para a criatura, quando ele acelera novamente, para ir de encontro a criatura, o carro desliga, começa a sair fumaça do motor, e cobre toda a visão, ele tenta acelerar em vão mais uma vez, mas o carro não pega de jeito nenhum. Ele se joga pro banco de trás do carro, atrás do banco do motorista ele pega a caixa de ferramentas, quando vê no piso do carro um pé de cabra.
    Ele sentiu o carro abaixar mais, como se um grande peso estivesse sobre ele. Depois sentiu o banco do motorista ser rasgado, a criatura atravessou a pata no capo do carro, e afundou o banco. Ele pegou o pé de cabra e o fincou no braço da criatura, com uma força tamanha que a ponta do pé de cabra entortou, não soube explicar aquilo naquele momento, o pé de cabra atravessou um pedaço do painel do carro, prendendo a pata da criatura, que soltou gritos de urros de dor. Uma cabeça abocanhou o capo e quebrou os vidros das janelas do passageiro e a outra o do motorista, elas começaram a rasgar o capo.
     Quando ele viu o sangue escuro da criatura jorrar dentro do carro, enquanto ela agonizava de dor, decidiu não desistir de sua vida.
     –     Essa é minha ultima chance!
    Rasgou a camisa, passou a mão pela janela do banco de traz do carro abriu o tanque de gasolina e colocou o pedaço de pano lá, enfiou a mão no bolso, pegou um isqueiro velho, de cor azul, e queimou a ponta do pano. Em seguida ele abriu o porta malas e saiu pela parte de trás do carro, sem olhar para trás, ele correu para dentro do matagal.
     A criatura percebe que Hawk’s saiu do carro, quando ela finalmente conseguiu tirar a pata que estava presa, o fogo invadiu o tanque do carro, gerando uma explosão de chamas, seguidas de um barulho ensurdecedor, que podia ser ouvido do outro lado da cidade.
      Hawk’s agradece a Deus por conseguir se livrar da criatura, mas após correr por uns segundos ele é acertado por um pedaço de pau na cabeça, sua vista escurece, e antes que ele veja quem o derrubou, ele apaga por completo.

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